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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

JP na Copa do Mundo sub-17 (parte 7): No sufoco, Angola vence e se classifica

Texto e fotos: Fernando Martinez


A segunda metade da viagem mágica e misteriosa pela Copa do Mundo sub-17 começou no dia 29, terça-feira passada, ainda na capital federal. De todos os seis dias da programação esse seria, pelo menos numericamente, o mais importante, já que foi o único com mais de uma seleção nova. Foi também o dia de ver em ação a seleção da casa em busca do tetra. Mas antes, a pedida foi curtir o genial encontro entre Canadá e Angola, abrindo a segunda rodada do Grupo A do torneio. O palco foi novamente o Estádio Walmir Campelo Bezerra, o Bezerrão.

Pela primeira vez na viagem não precisei ficar acordado até altas horas ou cair da cama para pegar ônibus ou avião. Esse descanso foi fundamental para conseguir levar de boa os 50% restantes do mundial. Sem nada planejado antes da rodada, o que fizemos foi dar um pequeno passeio por Brasília, levando o amigo Bruno para conhecer alguns endereços famosos da capital. Andamos muito e visitamos um monte de lugares que eu mesmo não conhecia. Também paramos num shopping ótimo perto do lago Paranoá para aquele almoço que sempre assusta nove entre dez nutricionistas.


Viaduto na entrada da cidade-satélite do Gama


A majestosa fachada do Bezerrão com a decoração da Copa do Mundo sub-17 do Brasil

Chegamos na cidade satélite do Gama novamente sem percalços e com tempo de sobra para todos os trâmites pré-jogo. Passei na confortável sala de imprensa antes de seguir até o gramado. Por conta da peleja de fundo o público já era bem maior do que o presente na segunda-feira. Os voluntários e os engravatados da FIFA estavam mais ligadinhos e conseguiram ser mais simpáticos do que foram na véspera. Acompanhei boa parte do aquecimento das seleções e não demorou para que toda a cerimônia oficial começasse.

Das 24 seleções que se vieram à Copa do Mundo sub-17 oito ainda eram inéditas na minha Lista (seriam nove, mas tive a sorte de ver o Tadjiquistão jogando em Osasco na semana que antecedeu o pontapé inicial do torneio). Cada grupo teve uma seleção nova, menos o Grupo A. A chave do Brasil contou com três, logo, o duelo entre canadenses e angolanos foi o único em que "matei" dois times de uma vez. Melhor cenário impossível levando em conta também que é um confronto bem difícil de acontecer.

O escrete norte-americano já é um velho conhecido na competição e atua pela sétima vez. A seleção alvirrubra carrega um incômodo recorde negativo de nunca ter vencido uma peleja sequer na história. Parece absurdo, mas é verdade. Foram 19 jogos disputados - incluindo a estreia contra o Brasil - e nenhum triunfo. Contando os 20 times que nunca venceram na Copa do Mundo sub-17 é disparado o que tem a pior performance: quatro empates e quinze derrotas, um assombro.

Na primeira fase do sub-17 da CONCACAF ficou atrás dos Estados Unidos no Grupo F e na frente de Guatemala e Barbados. Nas oitavas eliminaram Curaçao (!) e decidiram a vaga contra a Costa Rica. Gosto dos costa-riquenhos, mas torci muito a favor do Canadá. O jogo terminou empatado em 1x1 e a vaga foi decidida nos pênaltis. Felizmente a seleção da terra de Neil Young, Jim Carrey e Bryan Adams foi melhor na marca de cal e venceu por 4x3.

Do outro lado estava a simpática seleção de Angola, país que faz sua estreia na competição. Antes, chegaram perto da vaga em 1997, 1999 e 2017. Na disputa da Copa das Nações sub-17, eles caíram na chave da poderosa Nigéria e das geniais Uganda e Tanzânia. Por terem vencido os dois últimos, se classificaram para um torneio de campo da FIFA pela terceira vez em todos os tempos (em tempo: jogaram o mundial sub-20 em 2001 e a Copa do Mundo da Alemanha em 2006).



Angola e Canadá posando para as fotos oficiais. Foi o único jogo com dois times novos que vi na Copa do Mundo sub-17

E vejam só, na estreia o selecionado africano derrotou a Nova Zelândia por 2x1, conseguindo algo que os canadenses não foram capazes de conquistar em dezenove duelos. Eu não sou especialista e não sei como os norte-americanos atuaram em todos esses compromissos na história, mas uma coisa eu sei: contra Angola eles perderam boa oportunidade para quebrarem a incômoda marca. Não que tenham tido uma atuação soberba, porém chegaram perigosamente perto da meta defendida pelo goleiro Geovani.

Antes mesmo do primeiro minuto, o Canadá mandou uma bola na trave com chute de longe de Habibullah. Pouco depois foi a vez de Ralph Priso finalizar bem e o arqueiro africano defender com classe. Aos 20, no primeiro ataque de perigo de Angola, a árbitra marcou pênalti quando Demian colocou o braço na bola dentro da área. Pena para eles que dois minutos depois o lance foi anulado por impedimento na origem da jogada.

Aos 27, novo bom momento dos canadenses com Jayden Nelson cobrando falta para boa defesa de Geovani. Na base do "quem não faz toma", Angola abriu o marcador contando com a preciosa ajuda do goleiro Marc Kouadio. A bola foi lançada da direita e o camisa 1 saiu todo estabanado, deixando a meta desguarnecida. Zini se adiantou e tocou de cabeça, marcando seu segundo gol no certame. Antes da etapa inicial terminar, cada seleção criou um bom momento, porém o marcador não foi alterado.


Porfirio (2) cortando lançamento para Deandre Kerr (16)


Boa finalização do Canadá dentro da área africana


Deandre Kerr (16) sendo desarmado sob o olhar de Porfirio (2)


Jayden Nelson (11) avançando pelo lado direito


Zini (20) se esticando para cortar cruzamento canadense

Continuei acompanhando o ataque africano no tempo final e com quatro minutos achei que tinha feito besteira pois o Canadá deixou tudo igual. Ralph Priso deu um passe açucarado para Russel-Rowe na entrada da área. O camisa 9 avançou e mandou um chutaço no alto, sem chance de defesa. Dos dez aos vinte minutos os alvirrubros criou três ótimos momentos em sequência e jogou fora a chance de virada. Aos 32, nova chance quando Kerr ficou cara-a-cara dentro da área e chutou em cima de Geovani.

O gol canadense estava maduro e o time vermelho e preto só se segurava na defesa. É, só que o panorama da peleja mudou de repente. Num ímpeto ofensivo que ainda não tinha sido visto em todo o segundo tempo, o time de Maestro, Capita e companhia foi heroico. Aos 45 minutos, a bola foi lançada em profundidade para Zito. O camisa 10 foi ligeiro, entrou na área e tocou com classe para vencer Kouadio. As arquibancadas do Bezerrão ficaram em festa pois a grande massa presente torcia em peso a favor dos angolanos... isso até a árbitra uruguaia Claudia Umpierrez anular o tento por impedimento.

Foi um enorme balde de água fria para todos e apesar disso os atletas não desanimaram. A pressão continuou e aos 49 minutos Beni cobrou falta pela esquerda do ataque. No levantamento Mino tocou na direita, Zini tentou completar na pequena área e o goleiro defendeu no susto. No rebote, ele rolou para trás. David aproveitou a sobra e colocou no canto mesmo com três canadenses em cima da linha do gol. Agora os atletas, a comissão técnica e a torcida puderam comemorar o tento da vitória sem moderação.


Jacen Russell-Rowe (9) deixando tudo igual aos quatro minutos do segundo tempo


Gianfranco Facchineri (5) de olho na pelota em jogada na linha lateral


David (9) fazendo malabarismo com a bola sob o olhar de Kobe Franklin (2)


Kobe Franklin (2) tentando desarmar Capita (7)


Detalhe do gol de Zito (10) anulado pela arbitragem por impedimento



A jogada que resultou no segundo tento de Angola, marcado por David (9) aos 49 do tempo final


A comemoração dos jogadores africanos após a bela vitória contra os canadenses


O placar final de Angola x Canadá. O triunfo classificou o selecionado africano para as oitavas do Mundial

O resultado final de Angola 2-1 Canadá, além de ampliar o gigantesco tabu dos derrotados para 20 compromissos sem triunfo, também deixou a equipe beirando a eliminação. Já para o selecionado africano significou a incrível classificação para as oitavas de final com uma rodada de antecedência. Se não criaram o mesmo número de chances de gol do que o adversário, eles foram mais efetivos e na hora H foram melhores. Como o futebol não vive do "quase", a classificação foi merecida.

Encerrada a preliminar, tinha chegado a hora de acompanhar de perto a atuação do time da casa na rota do quarto título. Foi o primeiro jogo da Copa do Mundo sub-17 que vi com o estádio realmente cheio, uma raridade durante toda a competição. Se não foi o jogo dos sonhos, foi legal ver os meninos do Brasil bem de perto.

Até lá.

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Ficha Técnica: Angola 2x1 Canadá

Local: Estádio Estádio Walmir Campelo Bezerra (Brasília/DF); Árbitra: Claudia Umpierrez (Uru); Público: 1.232 pagantes; Cartões amarelos: Domingos, Keesean Ferdinand; Gols: Zini 31 do 1º, Jacen Russell-Rowe 4 e David 49 do 2º.
Angola: Geovani; Porfirio, Afonso, Pablo e Gege (Mimo); Maestro (David), Domingos, Beni e Zini; Capita (Abdoul) e Zito. Técnico: Pedro Gonçalves.
Canadá: Marc Kouadio; Kobe Franklin, Gianfranco Fachhineri, Nathan Demian e Keesean Ferdinand; Damiano Pecile (Julian Altobelli), Ralph Priso (Tomas Giraldo) e Deandre Kerr; Kamron Habibullah, Jacen Russell-Rowe (Mamadou Kane) e Jayden Nelson. Técnico: Andrew Olivieri.
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domingo, 3 de novembro de 2019

JP na Copa do Mundo sub-17 (parte 6): Fraco 0x0 entre México e Paraguai

Texto e fotos: Fernando Martinez


Não foi fácil ver a atuação italiana na estreia da Copa do Mundo sub-17 contra Ilhas Salomão. A Azzurra foi indolente e, mesmo sem muita vontade, goleou por 5x0, resultado que amenizou um pouco o incômodo de ver atletas tão desanimados. Mal sabia que o fechamento da jornada inicial do Grupo F seria ainda pior. No gramado do belo Estádio Walmir Campelo Bezerra, o Bezerrão, México e Paraguai fizeram um daqueles confrontos que poderiam durar uma semana que todo mundo já saberia o resultado.

Quando montamos o cronograma da Magical Mystery Tour por todos os estádios e sedes do mundial analisamos as doze partidas e duas delas carregavam uma possibilidade maior de 0x0, o placar mais sem sentido do futebol. Um deles foi o jogo entre mexicanos e paraguaios e o outro terá matéria publicada em breve. Resumindo: acertamos em cheio as previsões. Pena que não temos esse poder de adivinhação jogando na loteria.

Não vou mentir que acho o México uma das seleções mais sem graça do planeta junto com a Nigéria. Tenho vontade de visitar o país e se possível colocar alguns times na Lista, mas a seleção em si é muito sem sal. Claro que, com base da Lei de Murphy, já os vi em tudo que é competição: Pan de 2007, Copa das Confederações, amistoso internacional no Allianz Parque e também na Olimpíada. Isso sem contar as várias apresentações da equipe feminina no Pacaembu. Não adianta, por mais que eu me esforce não rola química.

Para agravar a percepção negativa, os meninos da terra do Chaves só eliminaram seleções que eu nunca vi na disputa do torneio sub-17 da CONCACAF. Na primeira fase ficaram à frente de Trinidad & Tobago, Jamaica e Bermuda. Nas oitavas, tiraram Porto Rico até chegarem na decisão da vaga contra El Salvador, sonho de consumo pessoal desde os anos 80. Não teve nem graça pois a vitória por 5x1 os colocou no mundial pela 14ª vez na história. Vale lembrar que eles foram campeões duas vezes, em 2005 (em cima do Brasil) e 2011, além do vice de 2013.

Do outro lado tivemos um dos nossos mais conhecidos vizinhos, cujo selecionado só entrou na minha Lista em 2017 e que, apesar de não ser a mais sensacional equipe do continente, é sem dúvida bem legal. A classificação foi garantida com o terceiro lugar no Sul-Americano. Na primeira fase eles passaram sufoco e chegaram na última rodada precisando de uma combinação de resultados. Tudo deu certo e a tal combinação ainda por cima eliminou o Brasil. Na segunda fase o cenário foi menos pior e o empate com o Chile na rodada derradeira os colocou pela quinta vez na Copa. A melhor participação aconteceu em 1999 quando chegaram nas quartas.

Entre a goleada italiana e o encontro latino-americano passei um bom tempo me refrescando no poderoso ar condicionado da área de imprensa. O local estava bastante vazio a não ser pela presença de dois ou três fotógrafos do país norte-americano, alguns voluntários da FIFA e um rapaz com camisa da Globo. Tirando isso, um mar de espaços vazios e um sossego completo. Daria para ter tirado uma soneca esperta, porém eu preferi não me meter nessa pois por conta do cansaço eu corria um grande risco de acordar somente depois da peleja.



Mexicanos e paraguaios posando para as fotos oficiais 


Detalhe das bandeiras das seleções do Grupo F tremulando no Bezerrão

Por conta da lambança que os engravatados da FIFA fizeram na preliminar, dei uma leve sugestão para que fizessem o esquema da mesma forma como estavam fazendo em Goiânia. A proposta foi levada em conta e tudo mudou no jogo de fundo. Quando as seleções entraram em campo, a organização foi bem mais eficiente e o procedimento foi feito de forma precisa e rápida. Assim, não tive problema para captar as fotos posadas das duas seleções.

Já sentadinho no meu lugar resolvi acompanhar, sei lá por qual motivo, o ataque mexicano no primeiro tempo. A rapaziada até começou bem e chegou dentro da área sul-americana algumas vezes. Aos 19 minutos o camisa 10 Israel Luna chegou a abrir o marcador, porém o tento foi anulado pois o atleta estava impedido. O Paraguai respondeu aos 29 com um bom chute de Diego Torres e defesa importante de Eduardo Garcia. Foi o que houve de importante na etapa inicial.


Santiago Munoz (9) encarando a marcação paraguaia


Rodrigo Melgarejo (3) correndo atrás de Santiago Munoz (9) no campo de defesa sul-americano


Detalhe do gol mexicano que foi anulado pela arbitragem


Santiago Munoz (9), sempre ele, em investida pela esquerda


Bola alçada dentro da área do Paraguai


Wilder Viera (6) sofrendo com a marcação de avante do México


Para variar, em jogo do México sempre pinta alguém com as geniais máscaras de luta-livre

Resolvi mudar o ângulo das imagens e subi até as cabines de imprensa nos últimos 45 minutos pois queria acompanhar a peleja com nova perspectiva e também fazer fotos de um ângulo diferente, já acreditando que nada mudaria no marcador. O escrete tricolor foi melhor do que o adversário... bom, melhor naquelas, já que chance de gol de verdade não teve. Os nossos vizinhos emplacaram aquela pressão insossa e bem sem vergonha. Aos 24, Eugenio Pizzuto foi expulso e o México ficou com um a menos.

Mesmo com dez a melhor oportunidade foi norte-americana. Decorridos 30 minutos, a bola foi cruzada da esquerda, passeou por toda a área tendo o camisa 19 Ali Avila como alvo. Rolando Ortiz, 5 do Paraguai, tirou o doce da boca da criança, mandando pela linha de fundo. Na sequência da jogada o jogador mexicano bateu com tudo na trave, gerando uma grande preocupação dentro e fora de campo. Felizmente nada de pior aconteceu com ele.


Diego Torres (20) em bom lance de perigo pelo alto no tempo final




O segundo tempo foi recheado de cruzamentos na área das duas seleções


O Paraguai atacando pela direita na parte final da partida


As duas seleções até tentaram, mas não teve jeito... foi o meu primeiro 0x0 na Copa do Mundo sub-17


Placar final de Paraguai x México, meu primeiro 0x0 no Mundial

Nesse cenário completamente árido de emoções o placar final foi aquele que pensamos lá quando soubemos que iríamos assistir esse duelo: Paraguai 0x0 México. Definitivamente não foi uma boa estreia de ambos. Só que como Ilhas Salomão deve perder de ambos, até uma eventual derrota contra a Itália deixará os dois com quatro pontos e plenas condições de chegarem nas oitavas ao menos com a terceira colocação. Foi ruim para quem assistiu, mas não foi catastrófico pensando no decorrer do certame.

Somente com o almoço de muitas horas antes, saí da portentosa cancha na companhia da dupla Caio/Bruno morrendo de fome. Por ser uma segunda-feira, foi difícil encontrar um bom restaurante aberto em Brasília. Tivemos que recorrer novamente ao mundo encantado do fast food. De bom, foi que voltarmos ao hotel rapidinho e pude finalmente ter uma ótima noite de sono após alguns dias praticamente sem dormir nada.

Metade da viagem tinha chegado ao fim e felizmente o fôlego estava longe de acabar. A programação da terça-feira foi a mais intensa pois, além de ver o selecionado verde e amarelo em ação, foi o único dia que pude colocar três seleções novas na minha Lista, algo que, nessa altura do campeonato, não acontece com tanta regularidade.

Até lá!

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Ficha Técnica: Paraguai 0x0 México

Local: Estádio Estádio Walmir Campelo Bezerra (Brasília/DF); Árbitro: Georgi Kabakov (Bul); Público: 710 pagantes; Cartões amarelos: Rodrigo Melgarejo, Rodrigo Lopez, Diego Torres, Fabrizio Peralta; Cartão vermelho: Eugenio Pizzuto 24 do 2º.
Paraguai: Angel Gonzalez; Santiago Ocampos (Ulises Lezcano), Rodrigo Melgarejo, Gaston Benitez e Rolando Ortiz; Wilder Viera, Fabrizio Peralta, Fernando Ovelar (Matias Segovia), Junior Noguera (Rodrigo Lopez) e Diego Torres; Fernando Presentado. Técnico: Gustavo Morinigo.
México: Eduardo Garcia; Emilio Lara, Alejandro Gomez e Rafael Martinez; Victor Guzman, Eugenio Pizzuto, Josue Martinez e Bryan Gongalez (Bruce El-Mesmari); Santiago Munoz, Israel Luna (Joel Gomez) e Efrain Alvarez (Ali Avila). Técnico: Marco Ruiz.
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JP na Copa do Mundo sub-17 (parte 5): Ilhas Salomão na Lista!

Texto: Fernando Martinez. Fotos: Fernando Martinez (exceto a indicada)


Depois de curtirmos as duas primeiras rodadas da Copa do Mundo sub-17 em Goiânia, na manhã do dia 28 coloquei o pé na estrada com destino a Brasília. Na capital federal o cronograma reservava mais quatro partidas e quatro seleções novas, começando com o insólito e genial encontro entre Ilhas Salomão - uma daquelas equipes que provavelmente verei apenas uma vez na vida - e Itália na abertura do Grupo F do certame. 

Percorri os 200 quilômetros que separam a capital de Goiás do Distrito Federal em cerca de três horas. No caminho, tive o prazer de passar em frente ao Jonas Duarte, em Anápolis, e também do Serejão, em Taguatinga (esse devidamente incluído na lista com um Brasiliense x Sobradinho em 2012). Por volta das 14 horas cheguei, junto com o amigo Bruno, ao destino final. Dali, já com a presença de Caio Buchala, o terceiro integrante da Magical Mystery Tour, nos dirigimos ao glorioso Hotel Nacional, sede dos dois dias seguintes.


O terceiro dia de coberturas da Copa do Mundo sub-17 começou cedo. O percurso de Goiânia a Brasília foi percorrido nesse ônibus

Inaugurado nos anos 60, o local recebeu nomes ilustres na sua história, inclusive a Rainha Elizabeth quando a sua majestade visitou a cidade em 1968. Fiquei rico de repente para poder pagar um hotel desse quilate? Longe disso. Eu apenas aproveitei um descontaço monstro na estadia e paguei menos do que a diária de um Íbis qualquer na capital paulista. Apesar de antigo e um pouco abandonado, o lugar ainda respira o glamour do passado. Minha dupla com o Bruno foi marcante, uma espécie de Dean Martin e Frank Sinatra do Século XXI.

Não tivemos muito tempo de descansar, já que partimos para a terceira rodada da viagem às três da tarde. O destino era o Estádio Walmir Campelo Bezerra, o Bezerrão, casa da Sociedade Esportiva do Gama. Essa foi a minha primeira vez na cancha e o meu glorioso retorno à capital do país após cinco anos. Meu último jogo na cidade tinha sido a lamentável decisão de terceiro lugar da Copa do Mundo de 2014, o horrendo Brasil 0x3 Holanda. Foi minha última partida em Copas do Mundo, pelo menos até agora.

Pouco antes das quatro da tarde chegamos próximos ao magistral estádio e descobrimos um fast-food providencial na região. Além da refeição ser boa, conseguimos estacionar o possante a 300 metros do portão principal. Chegando próximo da entrada pude notar com propriedade a grandiosidade da construção e fiquei bem impressionado. Inaugurado em 1977, o campo passou por reforma no meio dos anos 2000 e foi reinaugurado com o famoso Brasil 6x2 Portugal em novembro de 2008. A capacidade atual é de cerca de 20 mil pessoas.


Detalhe da belíssima fachada do Bezerrão, na cidade-satélite do Gama

Logo me dirigi ao setor de imprensa e, por ser o principal palco do mundial, o espaço reservado era bem maior. Embora fosse a segunda rodada disputada no local (a abertura oficial foi realizada no sábado) alguns voluntários da FIFA estavam bem perdidos e não sabiam dar informações, fora que alguns ganharam nota baixa no quesito simpatia, o que me fez sentir falta do staff de Goiânia. Já no gramado vi que o local é realmente incrível. A parte coberta é um show à parte.

Foi somente durante os 90 minutos que entendi os comandos da máquina fotográfica - antes tarde do que nunca - e também que o árbitro não sorteava lado na moeda, somente definia quem começava jogando. O mandante sempre atacaria à direita das câmeras de televisão na primeira etapa. Com isso, já sabia que ficando do lado esquerdo eu acompanharia os avantes italianos em ação. Tudo claro, tudo cristalino.

O grande problema da jornada aconteceu na hora em que as seleções foram ao gramado. Por causa de uma lambança sem tamanho dos engravatados e dos voluntários da FIFA, eu perdi a foto posada da Squadra Azzurra. Foi a única que faltou no meu álbum pessoal dos 24 participantes. Fui obrigado a rogar uma leve praga até a sexta geração dos familiares dos envolvidos.



As duas seleções posadas antes do apito inicial. Por conta de uma bagunça feita pela organização, a foto da Itália é do site da FIFA, pois como eles só quiseram atrapalhar ao invés de ajudar, tive que escolher uma das duas

Falando nos rapazes da terra da pizza, apenas pela oitava vez eles garantiram o direito de disputar a competição. O retrospecto é tímido e tem como melhor participação o quarto lugar no longínquo mundial do Canadá em 1987. Na Euro sub-17 eles superaram Alemanha e Áustria na primeira fase e decidiram a vaga com Portugal. O 1x0 os garantiu aqui no Brasil. Depois derrotaram a França na semi e perderam o título que não conquistam desde 1982 no revés diante da Holanda.

Agora, é fato que uma das seleções que mais queria ver na Copa era Ilhas Salomão. Mesmo que não tivesse conseguido emplacar a viagem monstra, eu teria dado um jeito de ver os oceânicos, independente da cidade em que eles fossem atuar. A nação, independente desde 1978, tem cerca de 600 mil habitantes e como o próprio nome já diz, é composta por várias ilhas. Um detalhe diferente sobre eles é que 10% da população tem cabelos loiros. Jogos Perdidos também é cultura.

A vinda do sensacional selecionado se consolidou na disputa do Campeonato sub-17 da OFC, realizado no ano passado. Na primeira fase, venceram Nova Zelândia, Papua Nova Guiné e Vanuatu. Na semi-final, derrotaram Ilhas Fiji (devidamente incluída na Lista desde 2016) e conquistaram uma vaga para um torneio de campo da FIFA pela primeira vez na história (já tinham conseguido disputar torneio de Beach Soccer e Futsal anteriormente). Na final, foram derrotados pelos neozelandeses nos penais.

É, só que depois do torneio, a OFC tirou todos os pontos ganhos por Ilhas Salomão e com isso perderam a vaga. Tudo porque chegaram à conclusão que o atleta Chris Salu foi utilizado de forma irregular deliberadamente durante todo o certame. A confederação local apelou da decisão e, em 3 de maio de 2019, os pontos foram restabelecidos e o lugar no mundial foi confirmado. Uma enorme alegria pessoal, já que provavelmente seria o Taiti, seleção que vi duas vezes na Copa das Confederações, que viria no lugar deles. Ufa!

Dito isso tudo, chegou a hora da pelota rolar. Desde o primeiro trilar do apito do árbitro, e confirmando 100% das expectativas, a Itália foi senhora absoluta da peleja. Wles criaram várias chances se aproveitando do futebol ingênuo e pouco combativo dos salomonenses, mas ao mesmo tempo mostraram um empáfia que deu raiva. A molecada meteu aquele salto alto safado e deu para perceber de longe que estavam jogando praticamente por osmose.

Tanto foi assim que o primeiro grande lance, para mim o maior erro de arbitragem da rodada inicial, foi de Ilhas Salomão aos 11 minutos. O goleiro Marco Molla cortou mal um cruzamento da esquerda e Philip Ropa abriu o marcador. O juizão marroquino Redouane Jiyed acabou enxergando uma falta no arqueiro italiano, a meu ver de forma incorreta. Revi o lance depois e fiquei com a mesma impressão. O susto foi sentido pelos italianos e aos 16 quase saiu o primeiro da Azzurra em cabeçada de Simone Panada.

A pressão seguinte foi intensa e um novo bom momento surgiu aos 20 com Degnand Gnonto, atacante de origem marfinense. O camisa 7 acabou abrindo o placar três minutos depois com chute cruzado na direita. Na comemoração, ele veio direto na lente do que vos escreve, numa foto digna de primeira página do Corriere della Sera. Aos 29 saiu o segundo em boa jogada de Gnonto que terminou com o gol de Nicolo Cudrig. Aos 33, Brentan tocou de calcanhar para o camisa 7 e ele, após driblar dois zagueiros, chutou firme e fez o terceiro tento europeu.


Lorenzo Pirola (6) e Christian Dalle Mura (5) subindo alto para tentar cabecear a pelota após escanteio


O goleiro Davidson Malam sofrendo um dos vários sustos no primeiro tempo, aqui em uma bola que bateu na trave


Aqui Matteo Ruggeri (3) também tentando de cabeça



Degnand Gnonto (7) inaugurando o placar aos 24 do primeiro em chute cruzado na direita e depois mandando aquele coração maroto para as lentes do JP



Degnand Gnonto (7) infernizou durante todo o primeiro tempo o setor defensivo de Ilhas Salomão. Na segunda foto, a marcação é de Simone Panada (4)


O bonito entardecer no Bezerrão durante Ilhas Salomão x Itália

O primeira etapa ficou em 3x0. Se eles apertassem um pouquinho só a defesa adversária, era evidente que poderiam chegar a um triunfo maiúsculo. Só que ao invés de uma injeção de ânimo nos vestiários, eles retornaram ao relvado com uma má vontade ainda maior. Foi irritante ver a displicência italiana. Por isso tudo torci demais para que Raphael Leai marcasse o gol de honra de Ilhas Salomão aos 17 quando ele acertou um belo tiro de longe. Pena que Molla fez boa defesa.

Nos minutos finais a resistência da defesa oceânica arriou de vez e o modorrento setor ofensivo da terra da bota conseguiu a proeza de marcar outras duas vezes. Primeiro foi Franco Tongya que fez o quarto aos 30 minutos quando entrou livre na área e tocou na saída de Davidson Malam. Aos 36, Andrea Capone recebeu bom passe da esquerda, deu um bonito drible no defensor e chutou no canto. O mesmo Capone fez o sexto na sequência, porém o gol foi anulado por impedimento.


Simone Panada (4) dando aquela bicuda e mandando a bola longe


No segundo tempo o ritmo italiano diminuiu, mas ainda assim a seleção europeia criou bons momentos


Nicolo Cudrig (11) em lance pela esquerda. Na cola, Simone Panada (4)


Franco Tongya (10) finalizando e marcando o quarto gol da Itália


Andrea Capone (19) fechando a goleada italiana aos 36 do segundo tempo


Zaga de Ilhas Salomão cortando cruzamento na área


Placar final da preguiçosa estreia italiana no Mundial sub-17

O placar final de Ilhas Salomão 0-5 Itália foi merecido pela superioridade técnica do onze europeu e só. Eles precisam jogar sério caso queiram ir longe na Copa do Mundo sub-17. Quanto aos salomônicos, eles vão perder os dois jogos seguintes, não há nenhuma dúvida disso, mas o grande título deles é estar disputando um mundial da FIFA. O verdadeiro troféu da rapaziada do outro lado do mundo já foi conquistado quando pegaram o avião para o Brasil.

Se eu reclamei bastante da falta de vontade italiana na preliminar, no duelo de fundo o cenário conseguiu piorar. Não foi fácil acompanhar duas seleções maltratando tanto a bola durante 90 minutos. Deu dó.

Até lá!

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Ficha Técnica: Ilhas Salomão 0x5 Itália

Local: Estádio Estádio Walmir Campelo Bezerra (Brasília/DF); Árbitro: Redouane Jiyed (Mar); Público: 859 pagantes; Cartão amarelo: Christian Dalle Mura; Gols: Degnand Gnonto 24, Nicolo Cudrig 29 e Degnand Gnonto 34 do 1º, Franco Tongya 30 e Andrea Capone 36 do 2º.
Ilhas Salomão: Davidson Malam; Derrick Taebo (Stanford Fakasori), Leon Kofana, Javin Alick (Zani Sale) e Pateson Tongaka; Richie Kwaimamani e Philip Ropa; Bradley Irosaea (Densly Geseni), Charles Mani, Raphael Leai e Alford Kanahanimae. Técnico: Stanley Waita.
Itália: Marco Molla; Francesco Lamanna, Matteo Ruggeri, Christian Dalle Mura, Lorenzo Pirola e Iyenoma Udogie (Samuel Giovane); Simone Panada, Michael Brentan e Franco Tongya; Degnand Gnonto (Andrea Capone) e Nicolo Cudrig (Riccardo Boscolo). Técnico: Carmine Nunziata.
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