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quinta-feira, 27 de junho de 2013

JP na Copa das Confederações (parte 2 de 8): O aguardado Taiti x Nigéria no Mineirão

Opa,

O segundo jogo que acompanhei in loco na Copa das Confederações 2013 foi um daqueles que certamente podemos colocar um selo de "imperdível" ou "histórico". Tenho certeza que a mente fértil de qualquer roteirista de Hollywood designado a escrever uma película sobre futebol não seria capaz de montar um script que tivesse como pano de fundo um duelo entre as seleções nacionais da Nigéria e do Taiti (!) no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte.

Porém antes de falar sobre a viagem é necessário tornar público o nosso eterno agradecimento ao chef de cozinha Alex Atala, responsável direto por termos a chance de ver um joguinho da seleção da Polinésia Francesa "perto" de casa. O preparador de gororobas chiques tinha uma simples missão durante o sorteio realizado em dezembro: tirar bolinhas de dois (!) potes. Simples, não? Só que ele conseguiu a proeza de errar na hora de tirar uma dessas bolinhas, jogando o Uruguai para o Nordeste e trazendo o Taiti para duas pelejas no Sudeste.

Enquanto a maioria das pessoas ficou indignada com esse erro, nós comemoramos como se tivéssemos feito um gol em final de campeonato, já que se ele tivesse feito o seu papel direitinho, a missão de colocar o selecionado oceânico nas nossas listas seria bastante dificultada. Com tudo isso, ele se tornou patrono oficial das nossas viagens nesse certame. O JP agradece de coração esse sensacional vacilo, Alex!

Bom, para poder ver o confronto entre os atuais campeões da Oceania e da África saímos bem cedo do Rio de Janeiro, com direito inclusive a curtir o belíssimo amanhecer da cidade. Por causa do trânsito monstro (diferente do que muitos acreditam, ficar parado por muito tempo dentro dos carros não é exclusividade da capital paulista) levamos cerca de duas horas para chegar na rodovia federal BR-040, nosso caminho para Belo Horizonte.


Belo amanhecer no Rio de Janeiro, com destaque para os arcos do Engenhão. Foto: Fernando Martinez.

Essa foi a primeira vez que tive a oportunidade de rodar pela antiga BR-3 (alô, Tony Tornado!) e o visual que encontramos foi espetacular, com destaque para a chegada até Petrópolis, a "Cidade Imperial". Dali até Juiz de Fora a BR-040 segue o trecho da primeira rodovia tupiniquim, a antiga Estrada União e Indústria, inaugurada em 1861.


A paisagem que temos na BR-040 é algo que merece destaque. Foto: Fernando Martinez.

A viagem seguiu sem nenhum problema maior até cerca de cinquenta quilômetros de BH. A partir daí o asfalto passou a ficar cada vez mais raro e em seu lugar enormes crateras atrapalhavam todos os motoristas. Isso atrasou um pouco nosso cronograma e já passava das 14 horas quando chegamos na capital mineira. Fomos deixar o possante alugado na casa do amigo Vítor Dias e dali partimos em definitivo para a pugna. Além do quarteto do Doblô (eu, Sérgio, Paulo "Shrek" e Jamil), passaram a integrar a comitiva o figura Renato, mais conhecido como "Super Taiti", Luciano Claudino além do próprio Vítor e sua simpaticíssima mãe.

Pegamos um ônibus mas tivemos que descer no meio do caminho graças a uma manifestação de professores nas redondezas do estádio. Por causa desse desvio chegamos no palco do jogo mais esperado do ano em cima da pinta. Nem deu tempo direito de ficar perdendo tempo na hora da entrada e na base da correria entramos no Mineirão no mesmo tempo em que as equipes entravam em campo.


Fachada do Mineirão dando as boas-vindas aos torcedores de Nigéria e Taiti. Foto: Fernando Martinez.

Pouco mais de 20 mil pessoas compraram ingresso para esse insólito confronto (o menor público para um jogo desse campeonato desde Camarões x Colômbia em 2003, que teve 12.352 torcedores), o primeiro do Taiti numa competição adulta da FIFA em todos os tempos. Seleção quase toda composta de atletas amadores, os taitianos fizeram história ao conquistar pela primeira vez o título da Oceânia após vencer a Nova Caledônia na final em 2012.

Só que desde então a seleção oceânica passou a deixar bastante a desejar. Depois do triunfo na decisão, realizada em 10 de junho do ano passado, o Taiti disputou seis jogos oficiais na região com apenas uma vitória e cinco derrotas, sendo eliminado precocemente na disputa por uma vaga na Copa do Mundo 2014. Na preparação para a Copa das Confederações, o Taiti realizou mais dois compromissos: uma derrota de 7x0 para o time sub20 do Chile e um revés pela contagem mínima para o time reserva do América/MG. Com essas cartas colocadas na mesa, dava para cravar que o selecionado da maior ilha da Polinésia Francesa seria de longe o grande saco de pancadas no certame.

Mesmo não sendo apontada como uma grande força, a Nigéria era amplamente favorita para esse jogo. Campeã africana em fevereiro desse ano (derrotando na final a espetacular seleção de Burkina Faso, que teve a torcida de 10 entre 10 amantes do futebol "perdido"), a equipe quase não veio ao Brasil graças a problemas entre jogadores e a federação local. Depois de muitas ameaças por parte dos atletas, a participação foi confirmada de última hora.


Seleções nacionais de Taiti e Nigéria perfiladas para os hinos nacionais. Foto: Fernando Martinez.


Joseph Blatter marcando presença para colocar a seleção do Taiti na sua Lista e ao lado um clone do ex-atacante corintiano Dinei. Fotos: Estevan Mazzuia.

Apesar do pouco público para os padrões de torneios da FIFA, podemos dizer que diferente do que rolou em jogos do Brasil, eventos recheados de "torcedores de ocasião" e avulsos que não tem a menor noção de como se portar num estádio, esse jogo teve como espectadores pessoas que realmente gostam de futebol. Entre os vários conhecidos presentes, vale destacar a presença do correspondente do JP na baixada santista Estevan Mazzuia, do amigo de Brasília Raul Dias e também de um dos primeiros leitores do blog, o gente boa Paulo Torres.


Chute (sem direção) para o Taiti no começo da peleja. Foto: Fernando Martinez.


Visão geral do Mineirão para Taiti x Nigéria. Foto: Estevan Mazzuia.

E como era de se esperar, a torcida foi toda para a equipe da Oceania. A cada tentativa de passe, a cada bola lançada, a cada chute torto, o público ia à loucura. Agora, falando a real, a equipe é fraca demais e duvido que conseguiria o acesso para a A3 se jogasse a Segundona aqui em São Paulo. Só nesse ano vi meia dúzia de equipes da última divisão estadual que venceriam um amistoso contra a seleção taitiana sem problemas.


O Mineirão recebeu o menor público num jogo da Copa das Confederações desde 2003. Estevan Mazzuia.


Pessoal do Daft Punk também curtindo o "jogo perdido" na Copa das Confederações e o "Super Taiti" zanzando pelos corredores do estádio. Fotos: Estevan Mazzuia e Fernando Martinez.

Mesmo com toda essa fragilidade a Nigéria não conseguiu impor uma goleada monstro contra seu frágil oponente. No primeiro tempo o jogo terminou em 0-3, gol contra de Nicolas Vallar aos 5 e de Oduamadi aos 10 e 26 minutos. Como a derrota era inevitável, a torcida era toda para que o Taiti fizesse ao menos um gol, sonho possível talvez apenas contra o adversário "menos forte" da chave.


Zagueiro taitiano desarmando um dos atacantes nigerianos. Foto: Fernando Martinez.


Mais uma boa chegada da Nigéria. Foto: Fernando Martinez.

E aos 9 minutos do tempo final aconteceu então um dos gols mais comemorados da história da Copa das Confederações. Após escanteio da esquerda, o goleiro Eneyama falhou e a bola foi parar na cabeça do camisa 17 da seleção alvirrubra, Jonathan Tehau. Ele subiu mais alto do que a zaga e cabeceou firme no canto direito do arqueiro africano.


Momento em que Tehau cabeceava para fazer o único gol da seleção do Taiti. Foto: Fernando Martinez.


Aqui, o camisa 17 saindo na alegria para comemorar o histórico gol. Foto: Estevan Mazzuia.


Todos os atletas da seleção alvirrubra juntos para festejar o primeiro gol do time em competições adultas da FIFA. Foto: Fernando Martinez.

Parecia o gol da vitória numa final de campeonato. Os jogadores taitianos se reuniram na lateral do belo gramado para festejar esse histórico tento para a seleção. Camisas dos eternos rivais Cruzeiro e Atlético se uniram na enorme festa, mostrando que o verdadeiro sentido do futebol está além dos cifrões e do profissionalismo extremista de muitos.


Gol da Nigéria anulado pela arbitragem. Foto: Fernando Martinez.


O quarto gol nigeriano foi marcado mais uma vez por atleta do Taiti. Aqui a pelota um segundo antes de estufar as redes. Foto: Fernando Martinez.

Ninguém se incomodou com os outros três gols que a Nigéria marcou até o apito final da peleja (outro gol contra aos 24, mais um de Oduamadi aos 31 e o tento de Echiejile aos 35 fechando o marcador). Após 90 minutos de jogo, o placar eletrônico do Mineirão mostrava o placar de Taiti 1-6 Nigéria, mas a torcida queria mesmo reverenciar esses atletas que vieram do outro lado do mundo esbanjando simpatia e certamente merecedores de todos os elogios. Bom ver que mesmo nesse futebol mercantil dos dias atuais, ainda exista espaço para emoções que vivemos nesse 17 de junho de 2013 em Belo Horizonte.


Quinto gol nigeriano, feito por Oduamadi, o artilheiro da tarde. Foto: Fernando Martinez.


A seleção africana fechou o placar aos 34 com o gol de Echiejile. Foto: Fernando Martinez.

Claro que não fomos embora logo após o término da peleja e ficamos zanzando pelas arquibancadas admirando a bela construção por muito tempo. Saindo dali voltamos à realidade rapidinho pois manifestações estavam chegando bem perto do estádio. Acabamos pegando o caminho da roça até a casa do Vítor, levando cerca de uma hora para chegar lá. Somente ali ficamos sabendo que o bicho estava pegando em quase toda a cidade e também em várias capitais do país.


Atleta do Taiti fazendo sua reza no gramado após o jogo contra a Nigéria. Foto: Fernando Martinez.


Seleção oceânica cumprimentando a torcida. Foto: Fernando Martinez.


Parte da turma presente no Mineirão para um jogo perdido dentro de um campeonato nada perdido. Foto: Transeunte.

Após um tempo para recarregar as energias, finalmente pegamos a estrada para percorrer os 586 quilômetros que nos separavam da capital paulista. Nosso motorista Jamil segurou bem demais a bronca e mesmo com uma neblima que nos acompanhou durante todo o percurso, chegamos são e salvos em São Paulo... Não antes sem passar um dos maiores sustos de todos os tempos ao entrar numa bocada federal na Zona Norte paulistana.

Esse foi o término da primeira parte da viagem que fiz para ver jogos da Copa das Confederações. Só nessa etapa foram quase 1800 quilômetros percorridos em 72 horas, mas o perrengue mesmo ainda nem tinha começado. A ida para o Rio no dia 20 de junho merece destaque como uma das maiores "roubadas" de todos os tempos...

Até lá!

Fernando

Um comentário:

  1. Uma honra ter encontrado Fernando, Sérgio, Renato e a pequena comitiva que os acompanhava no Mineirão, ainda mais em um jogo marcante como esse!

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