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segunda-feira, 20 de junho de 2016

JP na Argentina 15 (7/9): O inesperado retorno a Buenos Aires

Texto e fotos: Fernando Martinez


Depois de toda a frustração vivida no Uruguai e ter percorrido o trajeto Montevidéu-Colônia-Buenos Aires na base do sofrimento e do perrengue, cheguei em Buenos Aires na hora do almoço do domingo, dia 17 de abril. Com tempo apenas de ir pro hotel e deixar as malas, já parti em busca de um plano B para salvar o final de semana futebolístico. Buscando aquela informação sempre precisa, comprei o Olé e comecei a analisar o que tinha disponível na região.

A escolha foi acompanhar o confronto entre Barracas Central e Tristán Suárez na Primera B. Já escolado com o esquema de jogo adiado, entrei no perfil da AFA no Twitter e a peleja também tinha sido adiada (!). Tomando chuva no meio da Avenida 9 de Julio tive que ativar o plano C. Restou uma única - e genial - alternativa pela proximidade e pelo horário: pela 11ª rodada do Campeonato Argentino de Primera C, Excursionistas x Argentino de Merlo no estádio do primeiro, o genial El Coliseo del Bajo Belgrano.

Como o próprio nome diz, a praça de esportes fica no bairro de Belgrano, bem próximo a Nuñez, casa do River Plate, e fica a pouco menos de nove quilômetros do Obelisco, minha maior referência. Peguei um táxi e o percurso foi percorrido em cerca de 15 minutos. A região é fantástica e conta com apartamentos de classe média alta, casas bem simpáticas e é muito arborizada (para efeito de comparação, é como se tivesse um campo de futebol no meio de Higienópolis). O surreal é que, contrastando com o bairro, a cancha tem tanta grade e arame farpado que parece que estamos numa penitenciária de segurança máxima. A torcida do Excursio não é fichinha não.


A genial fachada do Coliseo del Bajo Belgrano



A arquibancada de fundo do Excursionistas e as cadeiras de madeira na parte mais ajeitada do estádio

O Club Atlético Excursionistas foi fundado em 1910 e faz parte do campeonato portenho desde o amadorismo. Participaram da primeira divisão de 1925 até 1934 e só saíram dela pois, com o advento do profissionalismo, quem utilizasse atletas amadores não faria parte da divisão principal. Desde então eles perambulam entre a Primera B e a Primera C, sem nenhuma temporada com resultado marcante. É uma das várias agremiações da capital da Argentina, esse sim o verdadeiro "país do futebol".

Do outro lado estava o genial Club Atlético Argentino, time fundado em 1906 e que se filiou à AFA apenas em 1978. Nos primeiros 70 anos de vida o destaque ficou a cargo da bocha, do xadrez e do basquete. Quando construíram uma nova sede em 1976, resolveram se aventurar no profissionalismo. Desde então, alternaram participações na Primera C e também na Primera D. Legal que durante a minha primeira viagem ao país vizinho em 2009 assisti seu grande rival, o Deportivo Merlo, jogando contra o grande rival do Excursionistas, o Defensores de Belgrano.

A sorte que não me acompanhou em terras uruguaias voltou a aparecer e consegui pegar a apresentação desde o início. Descobri lá que o fato da casa do Excursionistas ter gramado sintético fez com que a partida não tivesse chance de ser cancelada apesar de toda chuva que caiu nos dias anteriores. O público presente foi de cerca de 500 pagantes e a maior parte chegou em cima da pinta. Teve também a presença de meia dúzia de torcedores do Argentino de Merlo.

O onze local ocupava a quinta posição antes da rodada, enquanto o Argentino estava na incômoda 15ª colocação. A campanha entrou em campo e, por quase todos os 90 minutos, o Excursionistas foi melhor do que seu adversário. Enquanto a chuva ia e voltava, os Villeros enfileiravam bons momentos e envolviam a defesa visitante. Os principais nomes foram de Jonathan Da Luz e Alejandro Vera, ambos responsáveis por boas defesas de Martín Cabrera. Quando o intervalo chegou, o zero estampava o placar.


Com o futebol uruguaio sem rodada, voltei à Buenos Aires para não perder o final-de-semana. Excursionistas x Argentino de Merlo foi o Plano C, mas a peleja foi genial


Detalhe do Coliseu del Bajo Belgrano, a super bem protegida casa do Excursionistas


Ofensiva do Argentino de Merlo ainda no primeiro tempo

Já na etapa final o cotejo melhorou e finalmente vimos gols, animando a chuvosa tarde. Aos doze minutos, ainda mais inspirado no relvado, o Excursionistas inaugurou o marcador com o tento de Alejandro Vera. O camisa 7 foi lançado e, embora sofrendo com a marcação de um defensor, ele tocou com classe por cima do goleiro do Argentino. Cabrera ainda relou na bola, sem força suficiente para impedir o tento.

Depois de ficar em vantagem, os locais diminuíram o ritmo e pela primeira vez a Academia del Oeste se aventurou no setor ofensivo. O arqueiro da casa Arias Navarro fez duas boas intervenções, porém aos 32 minutos ele não conseguiu defender o forte chute de Nicolás Horacio. Mesmo tendo sido dominado durante a maior parte do encontro, o Argentino chegou ao empate, não sem a reclamação coletiva dos presentes no El Coliseo del Bajo Belgrano.

O Excursionistas sentiu o golpe e tentou, meio sem jeito, voltar à frente do marcador. Faltando oito minutos, o árbitro Rodrigo Pafundi marcou falta a favor do time da casa na entrada da área. Leonardo Ruiz bateu fraco, mas na tentativa de espalmar, o goleiro Martín Cabrera bateu roupa e viu a bola espirrar dos seus braços, morrendo no fundo do gol. Um frango clássico que recolocou os verdes em vantagem.


O genial contraste das duas camisas no gramado


Detalhe do primeiro gol do time da casa, marcado por Alejandro Vera


Bola passando por todos dentro da área do Argentino


O segundo gol do Excursionistas foi um frangaço do goleiro Martín Cabrera

Os visitantes sentiram o gol e desanimaram. Os comandados de "Bufalo" Szeszurak ainda criaram dois ótimos momentos, só que não marcaram o terceiro. No fim, o placar final ficou em Excursionistas 2-1 Argentino de Merlo. O triunfo fez com que a equipe de Buenos Aires subisse ao quarto lugar na tábua de classificação disputadas onze rodadas. A Academia permaneceu na 15ª posição, flertando perigosamente com o rebaixamento.

Feliz por ter visto o final de semana não ir pro lixo, retornei ao centro para finalmente descansar após três dias bem tensos. Falando em tensão, a segunda-feira reservou uma sessão futebolística absolutamente surreal. O Yupanqui x Juventude Unida, visto seis dias antes, perdeu o posto de jogo mais perdido da minha vida numa jornada repleta de surrealismo com uma boa dose de sorte, muita chuva e uma temperatura de congelar a alma. Inesquecível.

Até lá!

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sábado, 18 de junho de 2016

JP no Uruguai (1/1): A estreia no Parque Central pela Libertadores

Texto e fotos: Fernando Martinez


Na quinta-feira, 14 de abril, empacotei minhas coisas e, findada a estadia de cinco dias em Buenos Aires peguei o boné e me mandei até um local que queria visitar fazia tempo: a República Oriental do Uruguai. Foi a primeira incursão do JP na antiga Província Cisplatina. Saí do meu QG no centro e pouco depois já estava na estação do genial Buquebus esperando a balsa que me levaria até Montevidéu. Poderia ter ido de ônibus, só que a ideia de navegar no Rio da Prata era muito mais interessante.

Mesmo com o famoso trauma pessoal de mar a viagem foi sensacional. Nem parecia que estava num barco tamanha a tranquilidade durante o percurso. Deu tempo de curtir o duty free - sem comprar nada, claro - e todas as instalações do pequeno navio. Cheguei na capital uruguaia por volta das sete da noite e, antes de ser liberado, a polícia local provavelmente me confundiu com algum traficante sul-americano. Fui o escolhido entre todos os passageiros para ter a bagagem revistada. Tirando alguns alfajores, duas garrafinhas de 7up e alguns chocolates, nada ilícito e então fui liberado sem maiores problemas.

Dali peguei um táxi com destino ao hotel, que ficava ao lado da Rodoviária de Tres Cruces. Bom porque ficaria próximo do Estadio Centenario e também de vários outros pontos interessantes durante a minha - até então - estadia de seis dias na capital do país. Deixei as malas e logo peguei o caminho do meu primeiro compromisso futebolístico. Graças à intervenção do amigo Victor de Andrade, conheci a Rossina López e ela fez o grande favor de comprar meu ingresso com antecedência para a primeira cobertura do Jogos Perdidos no Uruguai em todos os tempos. A honra coube a Nacional x Rosario Central, meu terceiro compromisso pela Taça Libertadores da America fora do país pelo terceiro dia consecutivo. Tinha visto ambos apenas uma vez, as duas contra o Corinthians no Pacaembu no ano 2000.

O duelo foi disputado na casa do Decano, o genial Gran Parque Central, um dos estádios utilizados na primeira Copa do Mundo em 1930. Ele está em obras de expansão e, quando ela terminar, o local terá capacidade para 34 mil pessoas. A ideia é que, assim como há 86 anos, ele receba a abertura do Mundial de 2030. Além disso, é a cancha mais antiga das américas e a 15º do mundo. Ter a chance de visitar um local tão especial foi um privilégio enorme.

Apesar de já estar classificado, a torcida tricolor compareceu em peso na gloriosa praça de esportes. Mesmo com a casa lotada, foi fácil chegar e acessar as arquibancadas. O Nacional era o líder da chave com nove pontos, enquanto o Rosario estava com oito e precisava apenas de um empate para também se garantir entre os 16 melhores do certame. O Palmeiras também tinha chance e precisava derrotar o River Plate/URU na sua arena e torcer pro onze argentino não somar ponto. Era fato que o alviverde tinha uma missão bastante complicada.

A peleja começou com a agremiação visitante levemente melhor, porém sem criar momentos de perigo. Quando o relógio marcava 16 minutos, as notícias vindas do Brasil informavam que o time de Palestra Itália tinha aberto o placar. Um gol do Nacional eliminaria o Rosario e ele quase saiu aos 21 minutos quando Barcia chutou firme e Sebástian Sosa faz boa defesa. Aos 24, Ramírez perdeu novo bom momento a favor dos locais.


Nacional em campo para a última apresentação na fase de grupos da Libertadores


Do alambrado, visão dos atletas do Rosario Central se preparando para uma cobrança de falta


Visão do alto da arquibancada do Parque Central


Palco da abertura da primeira Copa do Mundo, a casa do Nacional de Montevidéu é um estádio bastante interessante

Conforme o tempo foi passando e o tento local não saiu, o Rosario foi se acertando. Num dos derradeiros momentos do tempo inicial, a zaga uruguaia vacilou e os argentinos não perdoaram. Cervi cobrou escanteio da esquerda e achou Alejandro Donatti sozinho na grande área. O atleta cabeceou sem marcação e fez o dele. Foi o gol que fez diminuir a esperança palmeirense a 1.900 quilômetros do Parque Central. No intervalo a chuva começou a apertar e eu deixei meu lugar à beira do gramado e subi até o topo da arquibancada.

Lá do alto vi o Nacional voltar ao gramado sentindo falta dos seus desfalques. O Rosario soube se portar direitinho e não deu sopa pro azar. Nem bem tinha chegado o primeiro minuto e quase Herrera, aquele ex-Botafogo e ex-Corinthians, fez o segundo. Aos 13 o Nacional bateu falta perigosa, num dos seus únicos momentos lúcidos nos 45 minutos finais. Aos 24 o sonho palmeirense morreu de vez quando Herrera fez um belo gol. Ele recebeu passe de Cervi, cortou o zagueiro e tocou por baixo do goleiro.


Lance no meio-campo e o visual dos jogadores de Nacional e Rosario Central


O clube uruguaio não foi bem, e suas tentativas foram neutralizadas pelo setor defensivo argentino


Defensor do Rosario roubando a bola de atleta local


Bola levantada dentro da área visitante no final da partida

A partir daí o escrete local se entregou e os argentinos esperaram apenas o tempo passar. O placar final de Nacional 0-2 Rosario Central ficou de bom grado para ambos e garantiu os dois nas oitavas, já que nem a vitória do Palmeiras por 4x0 em São Paulo adiantou. Os dois pegaram e eliminaram brasileiros nas oitavas. A torcida local não ficou feliz depois do apito final e só não pintou nenhuma crise maior pois a vaga estava garantida.

Saí do Parque Central debaixo de uma chuva bem forte e mal sabia que isso complicaria absurdamente a minha estadia no Uruguai. Na sexta-feira um tornado devastou uma cidade do interior e um dilúvio ininterrupto que durou 24 horas transformou Montevidéu num verdadeiro caos durante todo o dia. Com isso A AUF cancelou a rodada do dia 15. Passei o dia no hotel com uma leve escapada ao pequeno shopping que fica dentro da rodoviária de Tres Cruces. A esperança era que a chuva passasse de alguma forma, evitando assim que a rodada dos dias seguintes fosse confirmada.

Quando o sábado nasceu São Pedro tinha dado uma trégua e até o sol resolveu aparecer. Já estava pronto com destino ao primeiro compromisso da rodada tripla programada quando, por desencargo, resolvi conferir o perfil da AUF no Twitter. Eis que, para o meu completo desespero vi que simplesmente TODAS as partidas de TODAS as divisões e de TODAS as categorias não seriam realizados até a outra semana. Resumindo: meu cronograma com oito jogos tinha ido pro brejo. Frustração, raiva, tristeza... inúmeros sentimentos e sensações passaram pela minha mente.

Após cerca de dez minutos completamente sem reação, passei a pensar numa saída. A decisão mais lógica - e insana também, mas não me restava muito a fazer - foi voltar a Buenos Aires para terminar minha viagem em melhores condições. No tempo recorde de meia hora o voo estava remarcado e a passagem de buquebus, a famosa balsa, estava comprada. Às seis da matina do domingo sairia da cidade de Colonia del Sacramento com destino à Buenos Aires.

Tentando não deixar a impressão de Montevidéu e do Uruguai ainda pior, resolvi passar a noite de sábado dando uma volta no centro da cidade. Pena que, como cereja do bolo, as ruas estavam completamente vazias e sem nenhum restaurante ou lanchonete em funcionamento. Como em Buenos Aires tudo fica aberto até altas horas e temos dezenas e dezenas de opções, a comparação foi inevitável. Posso dizer que a impressão que tive do país vizinho foi a pior possível. Tudo bem que dei um azar danado por conta do tornado. só que isso só irá passar numa nova viagem que fizer até lá.

Acordei às quatro da matina no domingo e peguei um busão bem zoado que percorreu os 180 quilômetros que separam Montevideu da cidade litorânea em tempo recorde. A chuva tinha voltado e fiquei num banco com uma goteira em cima de mim. O motorista meteu o pé firme no acelerador e chegamos no destino em menos de duas horas. Como a grana já estava curta, a balsa dessa vez era mais humilde. Posso dizer que foram 50 minutos terríveis, já que o Rio da Prata estava nervoso e o bendito buquebus balançou absurdamente. Não foi fácil, definitivamente.

Quando eu desci em Buenos Aires quase mandei o gesto de beijar o chão que João Paulo II fazia quando visitava um país. Pode soar estranho, mas a sensação de "estar em casa" foi enorme. Retornei ao hotel em frente ao obelisco, o mesmo da primeira parte da viagem, e que voltaria a ser meu QG até o fim da Magical Mystery Tour. A AFA não tinha cancelado todos os seus jogos por conta do mau tempo. Mesmo assim passei perrengue (ainda mais) para salvar meu final de semana futebolístico.

Até lá!

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quinta-feira, 16 de junho de 2016

JP na Argentina 14 (6/9): Noite épica no El Cilindro com Racing x Boca

Texto e fotos: Fernando Martinez


Minha sexta peleja durante a edição 2016 da Magical Mystery Tour portenha foi a realização de um dos meus maiores sonhos futebolísticos em grande estilo. Desde que passei a acompanhar o esporte tinha a vontade de ver um jogo do Racing na sua casa, o magnífico Estadio Presidente Perón, também conhecido como El Cilindro de Avellaneda. No dia 13 de abril tive o privilégio de ver "La Academia" ao vivo pela primeira vez, enfrentando o poderoso Boca Juniors em partida válida pela Taça Libertadores da América.

Sempre tive a quase absoluta certeza que era impossível ver um clássico entre grandes da Argentina. Pela maior competição de clubes do continente então... chance abaixo de zero. Tanto achava isso que nem fui me informar sobre venda de ingressos. Quando acordei na manhã daquela quarta-feira desci e comprei meu exemplar do Olé, uma tradição obrigatória, e ao folhear o diário vi que ainda tinha ingresso disponível e que a venda iria até duas horas antes do apito inicial. Bateu aquele insight maroto e lá fui tentar a sorte.

Tinha na minha cabeça a ideia que Avellaneda ficava bem longe do centro de Buenos Aires, leia-se a Avenida 9 de Julio e o Obelisco, por exemplo. Foi só quando olhei o mapa que notei que não era nada absurdo. Apenas oito quilômetros separam o hotel aonde me hospedei e a casa do Racing. Sem querer arriscar, peguei um táxi e pouco depois já estava na bilheteria do El Cilindro. Não levei mais do que dois minutos para comprar minha entrada, com direito a um sorriso de ponta a ponta do rosto.


Fachada do Presidente Perón. A movimentação em torno do estádio horas antes da peleja era super tranquila


Foi moleza comprar ingresso para o clássico. Nem nos meus sonhos mais malucos eu imaginaria algo assim

Como ainda tinha tempo até o apito inicial fui conhecer a região e pude comprovar como o estádio do Racing fica do lado da cancha do Independiente. Apesar de ter sido inaugurado há pouco, o Libertadores de América não tem nem metade da mística da casa alvi-celeste. Conforme o horário marcado se aproximava a região passou a receber muito mais gente. Vale lembrar que os clássicos na Argentina são disputados com torcida única, então foi sossegado perambular pelos quarteirões próximos.

Exatamente às 19 horas resolvi ir pro meu lugar. Tirando uma pequena muvuca na subida pro anel superior, não tive problema nenhum. E assim como aconteceu no dia anterior quando visitei o Tomás Adolfo Ducó, casa do Huracán, ao entrar na arquibancada senti algo bastante raro nesses meus quase 35 anos de futebol. Sem exagero nenhum, eu fiquei hipnotizado pela atmosfera e pelo fanatismo da torcida local. Algo eletrizante, sensacional, inesquecível. Impossível não se sentir tocado de alguma forma por fazer parte de um espetáculo desse porte. Agora, vale dizer que não há espaço entre as fileiras. Praticamente temos que passar por cima dos que já estão sentados até chegarmos num lugar vazio.

A história do Estadio Presidente Perón vem de longe. Inaugurado em 1950, o El Cilindro começou a ser construído seis anos antes. Originalmente com capacidade para 60 mil pessoas, a praça de esportes abrigou momentos históricos como o primeiro Pan em 1951, a final da Libertadores e da Taça Intercontinental de 1967 e várias decisões importantes do futebol argentino em competições caseiras e internacionais. A mística é enorme e sentimos isso a todo momento. Pena que ele está meio abandonado, mas não por isso a experiência fica menos especial.

Falando do jogo em si, as duas equipes estavam no Grupo 3 da Libertadores da América junto com Bolívar e Deportivo Cali. O Racing era líder invicto com oito pontos e se vencesse se garantiria nas oitavas com uma rodada de antecedência. O Boca estava em segundo com seis e queria vencer pensando em não se complicar na tábua de classificação. Por ter vencido seus dois compromissos em casa por goleada (4x1 em cima dos bolivianos e 4x2 contra os colombianos) e tendo só sua torcida nas arquibancadas apostava alto do escrete local.


Assim como no estádio do Huracán, a casa do Racing também tem sua enorme torre


Desde criança eu queria ver um jogo do Racing no Presidente Perón. É sensacional alcançar uma meta assim


Troca de passes no ataque do Racing


Enquanto Racing e Boca jogavam, algumas crianças preferiam jogar bola em dois campinhos pintados no começo da arquibancada. Nunca tinha visto isso e achei espetacular

Pena que os 35 mil pagantes não viram uma atuação memorável do Racing, longe disso. A Academia a bola nos pés durante a maior parte do tempo nos primeiros 45 minutos, pena que não conseguiu transformar isso em bons momentos. O Boca se segurou e teve um pouco mais vontade... só um pouco. O fato é que a peleja não esteve à altura das tradições dos dois times e nem da competição. Eu não me incomodei, pois estava feliz só de estar presente no El Clindro.

Na etapa final o Boca Juniors se acertou e não deu chances ao Racing. Comandado por Carlitos Tévez, os visitantes ocuparam o campo defensivo adversário e criaram razoáveis momentos. Aos 19 chegaram a marcar, mas o gol de Fabra foi anulado por impedimento. Aos 20, os atletas visitantes pediram pênalti em bola que bateu no braço de Voboril dentro da área... o árbitro nada marcou. O mesmo Fabra teve ótimo momento aos 28, em lance que a zaga tirou.

De tanto insistir, os xeneizes finalmente marcaram as 38 minutos. Gago iniciou a jogava e tocou para Pavón. O atacante cruzou e a bola achou Lodeiro no segundo pau. O camisa 14 recebeu e só teve o trabalho de tocar pro fundo do gol de Sebastián Saja. O Racing ainda buscou fazer aquele famoso abafa nos minutos finais, só que a noite não era mesmo da Academia. A torcida, apesar da frustração, não parou de cantar um minuto sequer. Impressionante.


Ataque do Boca Juniors chutando de longe


Mesmo no anel de cima, a visão do campo é sensacional


Ataque visitante pela esquerda


Mais uma visão geral do Presidente Perón para Racing x Boca na Libertadores 2016

No fim, o placar de Racing 0-1 Boca Juniors colocou o onze azul e amarelo na liderança da chave com nove pontos e ambos se garantiram nas oitavas. O Bolívar teve a chance de tirar a Academia jogando em casa na derradeira jornada e apenas empatou. De qualquer forma, a expectativa de classificação dos dois argentinos se confirmou até que de forma bastante tranquila. O Boca pegou o Cerro Porteño e o Racing enfrentou o Atlético Mineiro.

Após o jogo, só pra variar, fiquei um tempão esperando a praça de esportes esvaziar curtindo cada segundo que faltava dentro do El Cilindro. Além de não saber quando voltarei lá, essa também seria a minha última noite em Buenos Aires durante a Magical Mystery Tour 2016. No dia seguinte empacotei minhas coisas e me mandei para Montevidéu com a intenção de continuar a saga no estrangeiro. Porém, tirando as primeiras horas no Uruguai, tudo que tinha planejado foi por água abaixo e a viagem tomou um rumo totalmente diferente. Falarei sobre no próximo post.

Até lá!

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terça-feira, 14 de junho de 2016

JP na Argentina 13 (5/9): Noite de Libertadores dos anos 70 no Huracán

Texto e fotos: Fernando Martinez


Na terça-feira, 12 de abril, sai da quinta divisão argentina para a Taça Libertadores da América em apenas uma hora e meia. Depois do genial Yupanqui x Juventud Unida pela Primera D aproveitei a deixa e segui da Estación San Justo com destino à Estación Buenos Aires, que fica pertinho do magistral Estádio Tomás Adolfo Ducó. Na base da raça fui tentar um ingresso de última hora para o confronto entre Huracán e Peñarol, válido pela penúltima rodada do Grupo 4 da principal competição de clubes no continente.

Já tinha tentado adquirir uma entrada para essa peleja no dia anterior e também antes de começar a jornada futebolística. Em ambas as oportunidades o local estava completamente vazio e não havia venda antecipada. Fiquei encucado e sabia que teria problemas na hora, mas como viajar para fora do país é sempre na base do tudo pelo social, vesti a camisa do "o não eu já tenho" e depois de desembarcar na estupenda estação de madeira fui a pé até a casa do Globo, na minha humilde opinião - e na do Emerson, expert em futebol argentino, também - a cancha mais bonita da Argentina.



O tamanho do Tomás Adolfo Ducó impressiona. Poucos estádios que visitei são tão imponentes quando ele. No destaque o nome "Huracán" na fachada principal

Andei cerca de um quilômetro e meio e logo estava na gigantesca Avenida Amancio Alcorta. O surreal é que, mesmo faltando cerca de 20 minutos para o apito inicial não havia absolutamente ninguém na rua. Ninguém MESMO. Nem cambista, nem torcedor, nem policial, nem vendedor ambulante. Para piorar, nenhuma bilheteria estava aberta. Ali pensei que meu sonho de ver um jogo do Huracán na sua majestosa casa estava indo por água abaixo. Foi quando prestei atenção e vi duas figuras que estavam perto de um carro estacionado próximo ao portão principal. Duas figuras que preenchiam todos os requisitos para serem cambistas.

Por sorte eles eram cambistas mesmo e como já estavam indo embora me venderam uma entrada por 1/3 do valor original. Uma grande sorte, certo? Mais ou menos. Quando cheguei no portão de entrada, descobri que era um ingresso para a torcida visitante. Não que não goste do Peñarol, mas a ideia de ver um jogo em Buenos Aires no meio dos visitantes não me apetecia muito. Sem muita escolha, nem cogitei ir embora. Na catraca um dos porteiros me alertou que parte dos torcedores carboneros "estavam roubando todo mundo" e que, por ser brasileiro, iria me ajudar. O simpático funcionário me colocou numa arquibancada lateral, longe dos uniformizados que estavam tocando o terror, junto com mais meia dúzia de escolhidos.

A primeira impressão que tive quando entrei no local foi espetacular. As arquibancadas são bem altas, bastante íngremes e a visão lá de cima é incrível. Poucas vezes nos meus anos de estrada fiquei tão impressionado num estádio de futebol. O magnífico local foi inaugurado com capacidade para 12 mil pessoas em 1924 e era todo de madeira. O primeiro nome era Estadio Jorge Newbery. Em 1941 o clube começou a construir arquibancadas de cimento e a capacidade foi ampliada. Seis anos depois, aconteceu a primeira peleja da nova fase - vitória do Huracán em cima do Boca por 4x3 - para absurdos 80 mil espectadores. Já em 1949, a reinauguração oficial, por coincidência num jogo contra o Peñarol. Em 1967 o nome foi alterado para o atual. Hoje a capacidade é de pouco mais de 48 mil pagantes.

No momento em que finalmente encontrei um lugar para ficar pude perceber que o funcionário me fez um enorme favor e por isso serei eternamente grato a ele. O setor central reservado aos visitantes estava um pandemônio só. Todos os uruguaios alucinados, cantando, dançando e arrepiando todos ao redor. Poucos estavam prestando atenção no jogo. Como eu estava de boca aberta e afinzão de acompanhar a peleja, fiquei no melhor lugar possível para assistir todas as emoções sem nenhuma interferência.

O duelo foi válido pela penúltima rodada do Grupo 4 da Taça Libertadores da América. O líder isolado e com 100% de aproveitamento era o Atlético Nacional. O Huracán tinha seis, o Sporting Cristal quatro e o onze uruguaio estava na lanterna com apenas um. O escrete oriental precisava vencer para ainda manter vivo o sonho da vaga nas oitavas. Um empate já eliminaria a outrora potente agremiação. Um triunfo do Globo garantiria a equipe entre as 16 melhores do continente.


Visão geral do magnífico Estádio Tomás Adolfo Ducó para um jogo de Libertadores


Não é toda hora que temos a chance de ver Libertadores na Argentina, ainda mais com o Peñarol em campo


A animadíssima torcida do Globo


Detalhe da parte nobre da casa do Huracán. O que as arquibancadas são íngremes não é brincadeira


A espetacular torre que fica acima das sociais da casa do Globo

Mais de 25 mil pessoas acompanharam um jogo bem movimentado. O tempo inicial foi agitado e o onze local quase abriu o marcador antes dos 20 minutos numa finalização pra fora de Mauro Bogado. Aos 22, Nández foi expulso e complicou ainda mais a missão uruguaia. Apesar de ter um a menos, o camisa 10 Diego Forlán, ele mesmo, arriscou alguns chutes, levando perigo à meta defendida por Marcos Díaz. Na base do olho no peixe, olho no gato, enquanto a bola rolava eu prestava atenção nos belíssimos detalhes da cancha. Faltam palavras para descrever como a cancha é espetacular.

Já no segundo tempo... ah, o segundo tempo. Os 45 minutos finais em Parque Patricios foram espetaculares. Desde 1996 vi um monte de jogo da Libertadores, mas nunca algo com tanta cara de anos 70. O Huracán voltou ao gramado buscando consolidar sua vaga, só que o camisa 1 do Peñarol Gastón Guruceaga se transformou no grande personagem da noite. Primeiro ele teve uma atuação debaixo das traves simplesmente fabulosa. O arqueiro desfilou uma série de defesas para todos os gostos: à queima-roupa, em tiros de longe e aos 25 ele defendeu três chutes seguidos, para o desespero dos hinchas argentinos.


Agora destaque para a rapaziada sempre gente fina, elegante e sincera torcendo pro onze uruguaio. Só maluco


Bola alçada dentro da área visitante


O Huracán tentou, mas não conseguiu furar o bloqueio uruguaio


Aquela treta marota após o apito final, pois sem ela a Libertadores não é a Libertadores

O duelo foi seguindo nesse cenário e nos acréscimos a coisa complicou de vez e vimos quatro minutos simplesmente sensacionais. O Huracán abriu o marcador aos 46 minutos, só que Ramón Ábila estava em posição de impedimento e o tento foi anulado. Na sequência, os atletas locais perderam o foco e o Peñarol se aproveitou. Num rápido contra-ataque o goleiro Marcos Díaz fez milagre e mandou a bola pela linha de fundo. Na cobrança, todo mundo foi para a área, inclusive o goleiro. E foi o próprio Guruceaga que completou de cabeça o cruzamento e fez o gol uruguaio. Só que o árbitro equatoriano anotou falta no goleiro local e anulou, fazendo com que a peleja terminasse com o placar de Huracán 0-0 Peñarol. O empate eliminou o clube preto e amarelo.

O clima já estava pesado e essa foi a deixa pro bicho pegar de vez. Os atletas dos dois times foram pra cima do quarteto de arbitragem e a pressão em cima do atrapalhado profissional foi enorme. A treta dentro de campo foi o ponto de partida para treta em tudo que é canto. Além da confusão no relvado, teve briga entre as duas torcidas, da polícia com os visitantes, da polícia com os locais e um clima de guerra surreal. Eu estava seguro lá no alto e vi de camarote as várias confusões, que estavam acontecendo de forma simultânea. Comprovando que os uniformizados carboneros realmente não eram amadores, vi de longe que eles desceram o porrete na tropa de choque da PFA. Isso definitivamente não é pouca coisa.

Levou cerca de meia hora para a poeira baixar e as coisas voltarem ao normal. Nesse meio tempo descobri que a torcida visitante - comigo incluído, claro - teria que esperar a boa vontade dos policiais para poder sair da cancha... aquela famosa questão de segurança. Enquanto esperava, desligaram os refletores e ficamos num breu sem conseguir enxergar praticamente nada. Depois disso, ainda foi quase uma hora até sermos liberados. Só que a noite ainda não tinha terminado.

Foi chegar na avenida e notei que os simpáticos homens da lei tinham feito um imenso corredor polonês para escoltar a saída de quem estava no setor visitante. Todos mal-encarados com seus escudos e seus cassetetes fazendo uma pressão psicológica poucas vezes vista pelo que vos escreve. Segui na via crucis por cerca de quinze minutos e no final da avenida fui liberado. O problema então passou a ser encontrar um táxi para retornar ao centro. Achei alguns que queriam cobrar um valor absurdo e levei mais meia hora para achar um motorista legal o suficiente para deixar o taxímetro rodar sem pilantragem.

Mais de dez horas depois de sair para a rodada dupla cheguei no meu hotel muito cansado. Não foi fácil, mas valeu muito a pena. O saldo da terça-feira foi de dois jogos, nenhum gol, dois times novos na Lista e muita história para contar. Na quarta não parei e voltei à ativa com mais Libertadores, agora num clássico portenho que nunca imaginei que teria a chance de ver ao vivo.

Até lá!

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domingo, 12 de junho de 2016

JP na Argentina 12 (4/9): Yupanqui e o jogo mais perdido da história

Texto e fotos: Fernando Martinez


Pode soar forte, pode soar exagerado, mas na tarde de 12 de abril assisti o jogo mais perdido da minha vida. Poucos encarariam uma hora de trem até a perifa braba de Buenos Aires para acompanharem uma peleja num estádio que não seria liberado nem na Copa Kaiser e com times que não jogariam a Segundona Paulista. Já estive em abertura de Copa do Mundo e juro que ver 90 minutos de futebol desse naipe é algo tão magnífico quanto. O nível de alternatividade transformou a tarde em algo absolutamente especial. Foi o quarto cotejo da Magical Mystery Tour argentina em sua versão 2016.

A terça-feira começou com bastante frio e o céu nublado dava um destaque ainda maior para tudo que estava por vir. Como o destino da primeira partida da única rodada dupla que fiz era bem longe do centro, resolvi encarar o genial sistema de trens suburbanos. Afinal, uma jornada tão especial merecia ser curtida em todos os seus detalhes. Saí do meu hotel próximo do Obelisco e fui de táxi até a Estación Buenos Aires, meu ponto inicial. Inaugurada em 1911, ela fica do lado do campo do Barracas Central, como você ficou sabendo aqui no post de Fénix x San Telmo.

Uma coisa bem legal dos trens de Buenos Aires é que você informa na hora de comprar a passagem qual é o seu destino e a atendente calcula qual é o valor que devemos pagar. O preço aumenta conforme o percurso é maior. Me informei direitinho e vi que teria que fazer uma baldeação, e então, seguindo pela Linea General Roca, fui até a Estación Agustín de Elía e dali peguei outro trem até a Estación San Justo, que ficava relativamente perto do meu destino. Foi aí que a história começou a ficar ainda mais surreal.

Outro detalhe genial de praticamente toda a rede ferroviária da capital e adjacências é que não existem roletas, catracas ou afins. O que existe apenas são os trilhos (claro), a plataforma e a rua, tudo com acesso ilimitado. Na hora em que compramos o bilhete e informamos o destino, ficamos com um ticket com todas as informações. Se pintar uma fiscalização dentro do trem e você não tiver o abençoado papelzinho, o fiscal te tira do veículo na estação seguinte. Absolutamente Impossível imaginar algo levemente parecido com isso por essas bandas.


Detalhe da Estación San Justo, a mais próxima da casa do Liniers

Ao desembarcar na plataforma da San Justo (que estava em reforma) já estava na rua. Ali começava a minha hercúlea missão: encontrar o Estadio Juan Antonio Arias, casa do CSD Liniers. Não tinha a menor ideia em como procurar a cancha, já que a mesma não existe no Google Maps. É, por mais absurdo que isso seja, não há como encontrar o local virtualmente falando. Como o porteño Emerson Ortunho já tinha visitado o local ele me ajudou com alguns detalhes preciosos, como, por exemplo, o lado em que deveria sair da estação.

Quando saí vi uma dupla de policiais enquadrando dois bolivianos. Como eram os únicos por ali, fui buscar informação com a versão sul-americana do Starsky & Hutch. Enquanto um deles revistava os suspeitos como se fossem dois traficantes internacionais, o outro foi super solícito e me informou a direção aproximada que eu tinha que seguir. Nada muito concreto, porém já ajudou um pouco mais no meu intuito. A região é uma bocada e me pegava pensando a todo segundo que somente o futebol tem como nos levar a lugares assim.

Andei bastante - cerca de quatro quilômetros - e parei quatro ou cinco pessoas no trajeto buscando confirmar que estava seguindo meu caminho na boa. Cerca de meia hora depois vi o portão principal da humilde e espetacular casa do Liniers. Só que na pauta não estava uma partida dos locais na Primera C e sim uma apresentação do genial CSD Yupanqui no Campeonato Argentino de Primera D, a quinta divisão nacional. O adversário foi o CDS Juventud Unida de San Miguel, pela sétima rodada do torneio de transição.

O Club Social y Deportivo Yupanqui foi fundado em 1935 e somente em 1976 começou a participar dos torneios da AFA. Desde então, nunca deixaram de disputar a Primera D (em tempo: essa era a quarta divisão até a temporada 1986/87. A partir do campeonato seguinte, passou a ser a quinta). Junto com o Boca Juniors e o Tristán Suárez é uma das três equipes que nunca mudaram de divisão no futebol argentino.

Sem resultados significativos na sua história, eles se tornaram famosos nacionalmente em 2001, quando a Coca-Coca fez uma campanha publicitária mostrando o Yupanqui como o clube com menor torcida do país. Para terem uma ideia, na época, o recorde de público como mandante era de 96 testemunhas (!). O mote foi a perseverança e que, independente de todas as dificuldades, o time se mantinha se forma digna sonhando com dias melhores. Os cinco vídeos foram um sucesso enorme e o número de sócios triplicou. O Emerson visitou as dependências da agremiação em 2005 - junto com a do seu maior rival, o Lugano - e publicou aqui no blog. Vale a leitura.

O adversário do "Los Traperos" foi o Club Deportivo y Social Juventud Unida, outra figurinha carimbada das últimas divisões do nacional. Fundado em 1949, o clube de San Miguel debutou no profissionalismo em 1957. A maior parte das participações é na Primera D e apenas cinco vezes eles jogaram uma divisão diferente, no caso a Primera C. Na história foram campeões do Apertura 1997 e Clausura 1998 da quinta divisão. Um confronto desses em campo neutro era algo absolutamente perdido na sua essência.

Falando da peleja em si, vale dizer que o Estadio Juan Antonio Arias fica num enorme descampado numa região com aparência de abandono total. A fachada tem apenas um portão de ferro, uma pequena bilheteria e alguns carros que pareciam estar ali desde 1981. Paguei meu ingresso e ao ultrapassar a catraca pude assimilar o ambiente e me certificar que estava realmente no cotejo mais perdido dos meus quase 40 anos. O local tem apenas uma arquibancada, do lado oposto da entrada, e ali os cerca de 70 presentes se concentraram. Mesmo numa tarde fria de terça-feira (!), sempre vai ter alguém presente.



A humilde e espetacular fachada do Estadio Juan Antonio Arias e um portão lateral destacando o escudo do time


A espetacular lousa que informa aos hinchas do Liniers o calendário dos jogos


Vista da arquibancada de concreto, a principal do Estadio Juan Antonio Arias


Do lado oposto tem outra pequena arquibancada, muito mais modesta do que a principal

Eu fiquei sentado exatamente na linha do meio-campo. Lá não há cabines de imprensa e os periodistas presentes estavam colocados em cima dos dois bancos de reservas. Alguns corajosos acompanharam o duelo atrás do gol "de fundo", em meio a um grande matagal. A FPF certamente não liberaria o estádio nem para o Amador do Estado. Isso só tornou o cenário ainda mais legal, pois meu estado de êxtase era parecido de uma criança que acabou de receber seus presentes de Natal.

Acabei vendo 90 minutos bem legais em que o Yupanqui sempre foi superior ao seu adversário. Apesar de algumas jogadas ríspidas dos dois lados, os atletas do clube de Lugano estavam bem inspirados. No primeiro tempo, dois grandes momentos e em ambos o arqueiro visitante trabalhou bem. No intervalo, placar em branco e esperança de gols na segunda etapa.


Pelo alambrado, visão da arquibancada única do sensacional estádio do Liniers


Bola zanzando dentro da área do Yupanqui


Marcação firme da defesa do Juventud Unida em investida local pela direita


O camisa 11 do Yupanqui tocando de cabeça em chance no segundo tempo


Zagueiro visitante tirando a bola do seu campo na raça

A pequena torcida do Yupanqui levou vários trapos e confesso que deu vontade de pegar um e trazer pro Brasil. Como não sou de fazer esse tipo de coisa, fiquei apenas olhando de longe. se bem que nem chegaria perto dos hinchas. Eles não estavam muito felizes, pois mesmo com o melhor futebol apresentado, o fato de não terem vencido a meta adversária foi suficiente para reclamaram bastante. Nada com violência, só os velhos palavrões de sempre proferidos a plenos pulmões.

Na etapa final a blitz foi ainda maior e os avantes traperos metralharam o camisa 1 do Juventud Unida criando oportunidades atrás de oportunidades. Pena que esse amplo domínio não tenha se traduzido em gols. Os lobos vermelhos também tiveram seus momentos, sem que assustassem o arqueiro local. No fim, maravilhado por estar naquele ambiente, vi meu primeiro jogo sem gols na viagem, porém isso não tirou nada do brilho da magnífica tarde.


Como o Juan Antonio Arias não tem cabines de imprensa, os "periodistas" ficam em cima dos bancos de reservas


Chute da intermediária a favor do Yupanqui


Disputa de bola pelo alto em nova chegada local


O contraste dos uniformes foi um dos pontos altos da peleja no campo do Liniers


Saída rápida do Yupanqui para o ataque


Os trapos da pequena, porém sensacional torcida do Yupanqui

O placar final de Yupanqui 0-0 Juventud Unida tirou o onze local da liderança após sete rodadas realizadas. O novo líder é o El Porvenir, que derrotou o General Lamadrid por 2x0 e subiu pra catorze pontos junto com os Traperos, este à frente por terem maior número de vitórias. O Juventud permaneceu na oitava colocação com nove.

Ainda meio anestesiado pela inesquecível jornada não tive tempo a perder após o apito final. Precisava correr pois ainda tinha a chance de emplacar a segunda sessão futebolística do dia. Saí da última divisão do campeonato argentino para a Taça Libertadores da América em pouco menos de duas horas. Nunca pensei que veria um jogo da principal competição do continente fora do país e posso garantir que a experiência foi surreal.

Até lá!

@ 2019