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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 13 de 13): A despedida com Unión Española x O'Higgins


O ano é 1994. O São Paulo era bi-campeão da Libertadores e tentava o tri. No dia 3 de agosto daquele ano, uma semana depois de empatar fora de casa na ida das quartas-de-final, o tricolor recebeu o genial Unión Española no Morumbi buscando uma vaga na semi. Pensando em encher a sua casa, a diretoria colocou o ingresso a R$ 2 e, mesmo não torcendo pro time, marquei de ir no jogo com os amigos que estudavam comigo pelo passeio e também por ser um time com um nome muito legal.

Debaixo de muita chuva, mais de 85 mil pessoas também tiveram a mesma ideia que eu. Resultado: uma muvuca absurda e boa parte dos presentes não conseguiu sequer alcançar as bilheterias. Cerca de 15 mil azarados, eu incluído, não conseguiram entrar. Fiquei bem chateado, primeiro pelo perrengue em vão e depois por ter perdido a chance de ver os chilenos ao vivo. Foi a última apresentação do clube da capital na capital bandeirante.

Corta a cena. Volta para 2015.

O dia 24 de outubro amanheceu nublado em Santiago. Me restavam poucas horas na capital chilena e queria aproveitar ao máximo os últimos momentos da viagem mágica e misteriosa. Acordei cedo e fui num hiper mercado próximo ao hostel em que estava fazer uma compra substancial de itens que não existem em São Paulo, mandando brasa naquela muamba marota de salgadinhos, doces e refrigerantes.

Pelo cronograma original essa seria a minha última atividade na cidade, porém tudo mudou dias antes quando divulgaram os horários da 10ª rodada do Torneo Apertura do Campeonato Nacional de Primera División, Abrindo a jornada, o já citado Unión Española e o genial O'Higgins de Rancágua jogariam no Estadio Santa Laura-Universidad SEK com pontapé inicial marcado para 12h30. Como meu voo decolaria somente às 18h00, dava tempo suficiente de assistir meu 13º e último jogo da turnê. Após 21 anos, tiraria uma grande pedra do meu sapato em grande estilo.

Os "Rojos de Santa Laura" foram fundados por um grupo de espanhóis residentes no país e também de descendentes ibéricos com o nome de Centro Español de Instrucción y Recreación em 18 de maio de 1897. Foi refundado oficialmente em 12 de abril de 1934 com a fusão com a Unión Deportiva Española, passando a se chamar apenas Unión Española. Em 2008 se tornaram um clube empresa com a denominação de Unión Española S.A.D.P.. A equipe tem os títulos nacionais de 1943, 1951, 1973, 1975, 1977, Apertura-2005 e o Torneo Transición 2013. É o segundo com maior número participações na elite além de ser o quinto maior campeão nacional. Vale também dizer que é um dos únicos quatro escretes do Chile (sim, é surreal pensar isso) que possuem estádio particular. Os outros são o Colo-Colo, Huachipato e Universidad Católica.

Para deixar o cenário ainda mais legal, do outro lado estava o Club Deportivo O'Higgins. Quando comecei a acompanhar futebol nos anos 80, o clube da cidade de Rancágua disputou suas primeiras Libertadores (precisamente em 1979, 1980 e 1984), então o nome diferente me chamou bastante a atenção. Fundado em 1955 depois da fusão do América com o O'Higgins Braden eles nunca foram grandes, mas praticamente sempre fizeram parte da divisão principal. O único título nacional foi o Torneio Apertura de 2013. O nome, claro, vem do "Pai da Pátria" do país, Bernardo O'Higgins.

Empacotei tudo direitinho antes de seguir até a cancha mais antigo de Santiago pois sabia que não teria tempo a perder. Fui até a estação Einstein, da Linha 2 do metrô, e dali segui a pé por quase dois quilômetros pela avenida de mesmo nome. Até 2009 ele se chamava apenas Estadio Santa Laura. O nome atual foi adotado a partir do momento que a Universidad SEK Chile, uma faculdade particular, recebeu a concessão do complexo pelos 30 anos seguintes. A ideia é a remodelação completa de tudo.


Avenida Eistein, que nos leva do metrô ao Estadio Santa Laura-Universidad SEK. Foto: Fernando Martinez.


A fachada da sede do Santiago Morning, clube que fica praticamente no mesmo quarteirão do Santa Clara. Foto: Fernando Martinez.

O local começou a ser construído em 1922 e foi inaugurado em 10 de maio do ano seguinte com a partida Unión Deportiva Española 0-1 Audax Italiano, um dérbi que reuniu os dois maiores rivais. Em 1933, o Santa Laura foi palco da primeira peleja profissional da história do país: Audax Italiano 3-1 Morning Star. A capacidade atual de público é de 19 mil torcedores, e tirando a parte coberta, os outros três lances de arquibancadas são aqueles famosos tubulares que tanto conhecemos por aqui.


No alto da arquibancada, o nome da cancha desde 2009. Foto: Fernando Martinez.


Visão aérea da bela casa do clube de Santiago. Foto: Fernando Martinez.



As duas torcidas marcando presença para a peleja do Campeonato Chileno da primeira divisão. Fotos: Fernando Martinez.

Assim como em todos os cotejos que vejo em lugares inéditos, fiquei um tempão andando pelas dependências do complexo assimilando a energia. Quando finalmente entrei no estádio em si, me chamou muito a atenção o enorme placar eletrônico. Tudo bem que ele fica num local não muito estratégico, mas impressiona do mesmo jeito. Como tem grade em tudo que é canto, fui lá pro alto para conseguir captar alguns instantâneos com mais qualidade. A visão lá de cima é esplêndida.

Apenas 2.060 pagantes acompanharam o duelo do oitavo contra o sexto colocado do Apertura 2015. Só que a rapaziada que marcou presença viu um jogo bom, principalmente no primeiro tempo. Os dois técnicos colocaram seus times atuando de forma bem ofensiva e em quinze minutos quatro bons momentos já tinham sido criados, dois de cada lado. Os dois primeiros foram dos mandantes respectivamente com Sergio López e Nicolás Berardo no primeiro minuto e aos cinco.


Ataque do Unión no comecinho da peleja contra o O'Higgins. Foto: Fernando Martinez.

O O'Higgins respondeu à altura aos seis e aos sete minutos com as finalizações de Gastón Lezcano e Ramón Fernández, este em chute que a zaga desviou. A equipe visitante não se intimidou com o fato de estar fora de casa e abriu o placar aos 25 minutos. Gastón Lezcano recebeu com passe de Juan Antonio Zuñiga e chutou de direita no canto do camisa 13 (!) Diego Sánchez. Quatro minutos depois Pablo Calandria teve a chance de ampliar, sem sucesso.


Boa chegada do time de Rancágua. Foto: Fernando Martinez.


Ataque local pela direita. Foto: Fernando Martinez.

Aos 31, a hinchada local fez a festa pois o Unión Española deixou tudo igual. Nicolás Berardo aproveitou assistência de Carlos Salom e chutou cruzado de direita, vencendo Roberto González. O que complicou a reação dos Rojos foi a expulsão de Gabriel Sandoval pelo segundo amarelo aos 35 (detalhe: o primeiro amarelo ele recebeu por uma falta dura feita logo aos dois minutos). Estar com um a mais fez o técnico do O'Higgins, Pablo Sanchez, promover mudanças ofensivas pro tempo final.


Zagueiro do O'Higgins fazendo o corte dentro da área. Foto: Fernando Martinez.


Bola que tirou tinta da trave do arqueiro local em cobrança de falta no segundo tempo. Foto: Fernando Martinez.

Aos 10 minutos Oscar Hernández cometeu pênalti e os visitantes tiveram a chance de ouro de virarem o marcador. Miseravelmente Ramón Fernandez bateu mal e mandou a bola pra fora. Os rancagüinos continuaram melhores e a zaga do Unión Espãnola não conseguia acompanhar os avantes adversários. Somente nos minutos finais que os hispanos chegaram perto do segundo com investidas de Carlos Salom e Fabián Saavedra.


Chance clara de gol perdida pelo Unión Española. Foto: Fernando Martinez.


O O'Higgins foi bastante perigoso nas suas investidas no tempo final. Foto: Fernando Martinez.

Quando parecia que a sorte estava definida, aos 46 minutos o Capo de Provincia chegou à virada, para delírio dos adeptos da Trinchera Celeste. Gastón Lezcano deu um belo passe para Emilio Zelaya e o camisa 8, que tinha entrado no tempo final, chutou no meio do gol. Diego Sánchez não foi capaz de defender. Os locais até tentaram assustar no pouco tempo que lhes restava, porém a peleja acabou em Unión Española 1-2 O'Higgins.


Mais um bom momento ofensivo do onze visitante. Foto: Fernando Martinez.


Placar final do meu último jogo da Magical Mystery Tour pelo Chile. Foto: Fernando Martinez.

A derrota manteve os hispanos com 14 pontos na nona colocação do Apertura. O onze de Rancágua subiu aos 19 pontos, dois atrás do líder, na quarta posição. Ao final do campeonato o Unión foi sexto e o O'Higgins o sétimo, ambos muito perto de conseguirem vaga na Liguilla que definiu uma das vagas para a Sul-Americana de 2016. O campeão foi o Colo-Colo, que ficou um ponto à frente do vice Universidad Católica.

Saí da cancha do Unión rapidinho e fiz o caminho de volta sem problemas. Só parei no hostel, peguei minhas coisas e fui de táxi pro Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez. Os procedimentos antes da viagem foram feitos e fui comer algo antes de entrar no belo aeroplano. Foi muito legal ver os Andes pelo alto pela primeira vez (na viagem de ida não estava na janela) e me impressionar com a extensão da cordilheira. Inevitável fazer referência ao filme "Vivos" durante todo o tempo, óbvio. Cheguei em São Paulo na noite de sábado já com saudade do Chile.

Não sabia muito o que esperar nessa grande jornada, e no fim fiquei muito feliz por tudo que consegui fazer. Depois de nove dias, quatro cidades visitadas, treze partidas e muitos quilômetros percorridos encerrei minha grande Magical Mystery Tour com o sentimento de dever cumprido. Também pensando que em breve pode rolar outra num destino que, se não é inédito, respira futebol como poucos lugares no mundo.

Espero que tenham gostado dessa série de posts... Até a próxima!

Fernando

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