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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 11 de 13): No histórico Estádio Sausalito em Viña del Mar


O dia 23 de outubro, penúltimo da minha viagem mágica e misteriosa pelo Chile, reservou um dos momentos mais especiais da minha carreira futebolística. Esperava com ansiedade por dois jogos decisivos nos Grupos A e B da Copa do Mundo sub-17 por vários fatores. O primeiro deles pois era a minha última viagem dentro do país sul-americano, a quarta em cinco dias. Depois, a genialidade dos duelos, a chance de colocar uma equipe nova na Lista e a presença num local com enorme carga histórica pro futebol penta-campeão do mundo. A parada final era Viña del Mar, cidade localizada a cerca de 120 quilômetros da capital Santiago.

Saí do meu hotel por volta do meio-dia e exatamente uma hora depois estava num coletivo tendo como destino o município fundado em 1878. Foram duas horas de uma viagem tranquila e com uma paisagem de primavera sensacional. Os Andes das minhas viagens anteriores deram lugar a um cenário repleto de flores e um céu super azul. Às três da tarde já me encontrava na rodoviária da cidade de pouco mais de 300 mil habitantes. Por ser uma tarde de sexta-feira as ruas estavam cheias e, como sempre, foi genial sentir o dia-a-dia em outra realidade.


O céu estava maravilhoso no caminho entre Santiago e Viña del Mar. Esta foi a vista de toda a viagem. Foto: Fernando Martinez.

Desde que a tabela do mundial saiu, fiquei com a ideia fixa de acompanhar uma rodada no emblemático Estádio Sausalito, casa do Brasil no bi-campeonato de 1962. Cresci vendo as imagens do Garrincha correndo atrás do cachorro contra a Inglaterra, do pênalti de Nílton Santos não marcado contra a Espanha, da contusão de Pelé contra a Tchecoslováquia e não queria perder a chance de me fazer presente nessa cancha repleta de mística e simbolismo para o futebol tupiniquim.

Por conta de estar adiantado no horário e de também querer curtir a cidade, não peguei um táxi e decidi percorrer o caminho a pé. Percorri os 3,5 quilômetros (em subida) sem pressa, curtindo o passeio pelas belas ruas da região. O campo fica situado em uma bela área verde e foi construído ao lado da Lagoa Sausalito, detalhe que torna a paisagem do complexo simplesmente incrível e única. Logo que cheguei troquei meu ingresso, passei pelos portões monumentais e fui dar uma volta.


Detalhe da enorme entrada da torcida no Sausalito. Foto: Fernando Martinez.


Fachada do Sausalito, cancha de várias lembranças histórias para o futebol brasileiro. Foto: Fernando Martinez.


A bela Lagoa Sausalito, que fica do lado do estádio. Foto: Fernando Martinez.

O local tinha a presença de quase ninguém quando cheguei na arquibancada e assim pude ter a visão completa da casa do Everton. Confesso que foram poucas as vezes na minha vida que me emocionei de uma forma tão intensa ao entrar num estádio. Fiquei alguns minutos apenas assimilando toda a energia do lugar e foi inevitável derramar algumas lágrimas felizes por estar ali. Aproveitei a sensação de alegria e compartilhei o momento fazendo aquele contato telefônico com o decano Milton Haddad. Ele com certeza teria sentido a mesma coisa.

O Sausalito foi inaugurado em 1929 com um jogo entre Santiago Wanderers e Unión Española. Em 1962 chegou ao seu maior momento quando sediou o Grupo C da Copa do Mundo com Brasil, México, Tchecoslováquia e Espanha. Depois recebeu o duelo de Garrincha e companhia contra a Inglaterra nas quartas e a semi entre tchecos e iugoslavos. O selecionado penta campeão do mundo também ficou lá na Copa América de 1991 junto com Colômbia, Uruguai, Equador e Bolívia. Em 2010 parte do local foi destruída num terremoto e em 2012 foram anunciadas as obras de revitalização. Também receberam três pelejas da Copa América no último mês de junho.


Visão da parte coberta do Sausalito sob o maravilhoso céu da primavera chilena. Foto: Fernando Martinez.


Agora a visão da arquibancada oposta do belíssimo estádio de Viña del Mar. Foto: Fernando Martinez.

Com todo o lance histórico na mente fui para a arquibancada achar meu lugar. Ainda com poucos torcedores presentes, resolvi ficar na primeira fileira, bem na beira do campo e acompanhar o ataque brasileiro de perto. Já estou acostumado a ver jogos bem próximo da ação, mas foi a primeira que fiz isso num torneio da FIFA (na Copa fiquei perto, mas não tanto) e a experiência foi espetacular. A jornada que iniciou os trabalhos foi uma das que definiu a situação do Grupo B da Copa do Mundo sub-17. Tudo bem que era um time juvenil, mas foi absolutamente genial ver a seleção penta-campeã mundial com seu uniforme tradicional no relvado. O adversário do onze verde e amarelo, e um dos motivos da minha presença, foi a genial seleção de Guiné e seu maravilhoso uniforme.

Nas duas rodadas iniciais da chave o escrete canarinho perdeu da Coreia do Sul de forma surpreendente e depois se recuperou e venceu a Inglaterra. Os guieanos empataram com os ingleses e também foram derrotados pelos asiáticos. A rapaziada tupiniquim tinha que vencer para não depender dos resultados dos outros grupos. Já a rapaziada da Guiné precisava conquistar os três pontos e um empate significaria a eliminação na primeira fase.


Seleções perfiladas para a execução dos hinos nacionais. Foto: Fernando Martinez.



Foto posada do Brasil e de Guiné, estes num estilo absolutamente genial. O ângulo não é muito favorável, mas vale o registro. Fotos: Fernando Martinez.

Falando da parte histórica, o Brasil joga o torneio pela 15ª vez, tendo ficado de fora somente de uma edição - 1993 - desde a criação da competição em 1985. Fomos campeões em 1997, 1999 e 2003, vice em 1995 e 2005, terceiro colocado em 1985 e quarto em 2011. Apenas os nigerianos ganham no retrospecto. Guiné participa do seu quarto mundial e tem como melhor colocação um quarto lugar na primeira edição. Desde já é um dos times mais legais e raros a fazer parte da minha Lista.

No sol a temperatura estava alta, mas felizmente na sombra o vento frio cortava a alma. Nesse clima delicioso acompanhei o aquecimento das duas seleções e a entrada oficial em campo. Pela primeira vez ouvi o Hino Nacional fora do país e, mesmo sem ligar muito, foi emocionante também por todo o contexto escutá-lo sob essa nova perspectiva. Alguns chilenos vaiaram o hino e eu, dentro de um patriotismo inédito, quase descolei um incidente diplomático com os figuras. Desrespeito não, pô.

Quando o árbitro alemão Deniz Aytekin apitou pela primeira vez no Sausalito ficou claro que o Brasil não queria dar sopa pro azar e a molecada começou com tudo infernizando a zaga da Guiné. Aos 15 minutos Leandro recebeu bola lançada pela direita e o goleiro africano o derrubou dentro da área. Pênalti. Lincoln bateu bem e abriu o marcador. Pouco depois a pelota foi lançada na esquerda de novo para Leandro. O camisa 7 entrou na área e tocou por cobertura. A finalização saiu pela linha de fundo, tirando tinta da trave.


Yamadou Touré, 14 da Guiné, dominando a pelota sob o atento olhar de Éder Militão e Rogério. Foto: Fernando Martinez.


Leandro em chegada pela direita. Na sua marcação, o capitão Mohamed Kourouma. Foto: Fernando Martinez.

Só dava o escrete canarinho e aos 32 minutos, numa tentativa de jogada individual, Kleber sofreu falta na direita. Lincoln cobrou a falta milimetricamente na cabeça de Leandro, de novo ele, que fez o segundo. A zaga de Guiné parou pedindo impedimento, porém um dos zagueiros comeu mosca e deu plenas condições. Com os 2x0 contra, os africanos viram que a vaca estava indo pro brejo e tentaram emplacar algum bom ataque tentando diminuir o prejuízo. Num dos últimos ataques eles foram prejudicados pelo senhor juiz. Jules Keita avançou pela direita e foi derrubado pelo camisa 6 Rogério dentro da área. Pênalti não marcado.


Aboubacar Touré fazendo o desarme em cima do camisa 9 Luís Henrique. Foto: Fernando Martinez.

Quando os times estavam saindo do gramado em direção aos vestiários Lincoln foi juvenil no pior sentido da palavra e se envolveu numa discussão desnecessária com Morlaye Sylla, camisa 7 de Guiné. O jogador tupiniquim deu um empurrão no africano e conseguiu a proeza de ser expulso sem a bola rolando. Tudo bem que o escrete africano não era nenhuma Brastemp, mas a chance de termos problemas com dez em campo no tempo final era grande.


Boa chegada de Luís Henrique pela esquerda. Foto: Fernando Martinez.


Mohamed Kourouma se preparando para mandar a bola longe do seu campo de defesa com o camisa 19 Arthur na cola. Foto: Fernando Martinez.

No intervalo continuei com minha missão de exploração do estádio e fui fazer uma boquinha numa lanchonete. Pro segundo tempo resolvi subir até o alto da arquibancada e ali fiquei até o final da jornada. O primeiro lance perigoso dos últimos 45 minutos foi do onze africano. O camisa 17 Aboubacar Toure avançou pela esquerda e chutou firme. O goleiro Juliano fez brilhante defesa e impediu o primeiro gol adversário. Guiné tentava se aproveitar da vantagem numérica, só que a limitação técnica do grupo deixou a reação apenas no sonho.


Ataque da Guiné no tempo final com direito a poses plásticas dos atletas da duas seleções. Foto: Fernando Martinez.


Detalhe, meio de lado, do placar eletrônico do Estadio Sausalito. Foto: Fernando Martinez.

Os sul-americanos apostavam nos contra-ataques e num deles, aos 22 minutos, a fatura foi fechada com sucesso. Num ataque pela direita de Dodô, a bola foi cruzada pro meio da área. Aboubacar Toure e o goleiro Moussa Camara deixaram a pelota passar e ela sobrou para Arthur, que, com o gol aberto, fez o terceiro, A Guiné fez o gol de honra aos 38. A bola foi tocada da esquerda pro camisa 7 Morlaye Sylla na entrada da área. Ele se aproveitou e chutou com classe no canto esquerdo de Juliano... pena (para eles) que tarde demais.


Seleção brasileira atacando pela direita. Foto: Fernando Martinez.


Bola no fundo das redes de Juliano no único gol de Guiné. Foto: Fernando Martinez.


O colorido das camisas deu um contraste sensacional à partida. Foto: Fernando Martinez.

O placar final de Guiné 1-3 Brasil classificou os canarinhos como segundos colocados do Grupo B, atrás da surpreendente Coreia do Sul. Os coreanos foram eliminados pela Bélgica nas oitavas-de-final, enquanto o Brasil, depois de derrotar a Nova Zelândia, tomou 3x0 da futura campeã Nigéria nas quartas, repetindo a eliminação de dois anos atrás no mundial dos Emirados Árabes Unidos. Já faz um tempo que a rapaziada daqui não faz uma campanha digna de registro.

Quando a preliminar terminou o Sausalito já estava tomado pelos torcedores chilenos. A peleja de fundo foi decisiva para a continuidade dos donos da casa na Copa do Mundo sub-17. Foi uma sessão futebolística de arrepiar.

Até lá!

Fernando

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