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domingo, 20 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 10 de 13): A visita ao Monumental David Arellano


Seguindo com o genial cronograma da minha viagem pro Chile, acordei na manhã de 22 de outubro botando o pé na estrada pela terceira vez em quatro dias pois o show não podia parar. Saí do genial hotel cassino em que me hospedei em Talca e pouco tempo depois cheguei na humilde e simpática rodoviária da cidade. Dali, segui cerca de 250 quilômetros até Santiago, o meu retorno à capital do país depois de pouco mais de 72 horas de ausência.


A pequena e simpática rodoviária de Talca. Foto: Fernando Martinez.

Dessa vez não fiquei no magnífico hotel ao lado do Palácio de La Moneda e sim num hostel distante do centro. Bem menor, ele era todo estiloso, só que eu senti saudade dos meus primeiros dias em Santiago. A cama era boa, o chuveiro bem honesto, porém não tinha vista (fiquei no térreo e a janela/porta dava acesso apenas a uma área comum do local) e era longe de tudo. Como o esquema é tudo pelo social, consegui curtir mesmo assim. Nem bem cheguei e só deu tempo de deixar as malas antes de partir pro décimo jogo na turnê.

Peguei o metrô e desci na Estação Pedrero, que fica entre a San Joaquín e a Mirador, todas da Linha 5. A 600 metros dali, temos a entrada do genial Estadio Monumental, também conhecido como Estadio Monumental David Arellano. A belíssima cancha é casa do Club Social y Deportivo Colo-Colo, figurinha carimbada de competições sul-americanas desde sempre. Na noite daquela quinta-feira o onze local duelaria contra o genial Club de Deportes Copiapó no duelo de volta das quartas de final da Copa Chile.


Parece imagem daqueles quebra-cabeças de 5 mil peças, mas é apenas a visão de quando estamos chegando no Monumental David Arellano. Foto: Fernando Martinez.

Todo mundo conhece o campeão da Libertadores de 1991. Mas poucos já ouviram falar no escrete visitante, que tem sede na região do Deserto do Atacama. A equipe foi fundada em 1999 e nunca participou da primeira divisão local, tendo como único título a terceira divisão de 2002 . Eles entraram para a história por terem sido a primeira sociedade anônima fundada no Chile. São os sucessores do Club de Deportes Regional Atacama. O DRA disputou o profissionalismo de 1980 a 1998 e quebrou por conta de dívidas.

O "pequeno" detalhe é que eu não tinha ingresso. Fiquei sabendo no caminho que, assim como alguns grandes do Brasil, eles não vendem entradas no dia dos jogos e encerram a venda sempre horas antes via internet. Não quis voltar pro hotel e perder a chance de colocar um time tão genial na minha Lista, então me mantive firme e forte na base da teimosia. Fui num portão, depois em outro, e nada de encontrar alguém vendendo um mísero ingresso.

Ainda levou um tempo para encontrar um cambista metido a Gardelón que fez um preço camarada - paguei menos do que o valor facial pois o jogo estava prestes a começar - sabendo que eu era brasileiro. Só fiquei preocupado com a chance do ingresso ser falso, porém quando passei pela catraca felizmente tudo deu certo. Em tempo: não gosto de cambistas, mas numa situação extrema como essa não me restou alternativa. Como os clubes não pensam na hipótese de ter alguém visitando o estádio só naquele dia, fui obrigado a apelar.

Logo quando entrei vi que o "monumental" do nome faz todo o sentido. Os acessos são largos e uma estátua do cacique dá as boas vindas aos torcedores que chegam na parte nobre. Subimos uma pequena escada e antes de chegar ao setor das cadeiras, há um enorme hall com lojas, lanchonetes e muito da história do clube fundado em 1925. Quando seguimos pelo caminho nos assentos... aí a coisa fica séria. O visual com a Cordilheira dos Andes ao fundo é absurdamente espetacular. Não há como não se emocionar com o cenário que parece saído de um quadro. De todas as canchas próximas dos Andes, essa sem dúvida é uma das mais belas.



Entrada do Estadio Monumental, casa do Colo-Colo e o detalhe do Cacique que fica logo acima das escadas. Fotos: Fernando Martinez.


Detalhe de todos os escudos do "El Popular" no hall de entrada da parte nobre da cancha. Foto: Fernando Martinez.


O enorme hall da arquibancada coberta do Monumental. Foto: Fernando Martinez.


Sem dúvida essa é uma das mais belas vistas de um estádio de futebol que já vi. Os Andes transformam qualquer paisagem em algo espetacular. Foto: Fernando Martinez.

Como o JP é cultura, vale contar que o majestoso estádio começou a ser construído em 1958 com intuito de ser utilizado na Copa do Mundo de 1962. Depois do terremoto de 1960, o comitê organizador resolveu usar apenas canchas já existentes no país, e com isso a construção se arrastou por longos anos até a esperada (e demorada) inauguração oficial meio nas coxas em 1975. Depois de apenas seis jogos, o Colo-Colo deixou de usar o estádio pois viu que ele não era seguro para os torcedores. Foi somente em 1989 que o "El Popular" passou finalmente a utilizá-lo com frequência.

O local foi palco da grande final da Libertadores de 1991 (triunfo do Cacique contra o Olimpia) e da Copa Interamericana do ano seguinte (outra conquista do alvinegro, agora contra o Puebla). Também recebeu duas pelejas da Copa América disputada em junho deste ano: a derrota brasileira contra a Colômbia e o triunfo em cima da Venezuela. Além disso, já foi palco de onze compromissos da seleção nacional. Planejado para receber 120 mil pessoas (!), foi construído com capacidade de 62 mil. Por questões de segurança, hoje cabem 47 mil pessoas.

Apesar da enorme capacidade, somente oito mil pagantes se aventuraram a acompanhar de perto a tentativa do Colo-Colo alcançar a semi-final da Copa Chile. Na partida de ida realizada na semana anterior longe dos seus domínios, o time da capital venceu por 3x2 e precisava de apenas um empate para se garantir entre as quatro melhores agremiações da competição. Na fase anterior, a equipe eliminou o Coquimbo Unido com um triunfo e um empate.


Festa da torcida do Colo-Colo com a entrada da equipe em campo. Foto: Fernando Martinez.


Times se cumprimentando antes da peleja decisiva pela Copa Chile. Foto: Fernando Martinez.


A fiel torcida do Deportes Copiapó marcando presença no Monumental. Foto: Fernando Martinez.

Sentado confortavelmente numa das cadeiras de ferro - que lembrava muito as do antigo Palestra Itália - vi um jogo bem movimentado que teve o escrete local passando um sufoco totalmente desnecessário. O começo até que foi bom e os 21 minutos Emiliano Vecchio abriu o placar com um chute forte do meio da área depois de rebote da zaga. Só que o Copiapó não se abateu e deixou tudo igual aos 29. Num escanteio da esquerda, a bola passou por todo mundo, mas não por Sebastián Villegas, camisa 20, que finalizou bem.

Dois minutos depois, mais uma vez o Colo-Colo ficou em vantagem. Esteban Paredes chutou com o pé esquerdo de fora da área no canto esquerdo do gol defendido por Ignacio González. Novamente os visitantes tentaram e quase empataram por dois momentos aos 41 e 42. Quando o tempo inicial chegou ao fim, o triunfo parcial de 2x1 a favor do Cacique estava garantindo a classificação.


Ataque do Copiapó no começo do jogo. Foto: Fernando Martinez.


Investida do Colo-Colo pela direita. Foto: Fernando Martinez.


Bola viajando dentro da área local. Foto: Fernando Martinez.

O Leão de Atacama retornou pro tempo final sabendo que precisava de dois gols para pelo menos levar a decisão aos pênaltis. Eles conseguiram encurralar o Colo-Colo no campo de defesa e foram responsáveis por momentos de muito perigo, deixando os torcedores bastante preocupados. Primeiro Luis Bevacqua quase empatou aos três, depois foram boas chances aos 10, 13 e 18 minutos. De tanto insistir, Muriel Orlando fez o segundo aos 25 de cabeça, fazendo a esperança renascer.

Esse tento sofrido deixou o Copiapó animado e os atletas se lançaram ao ataque sem nenhuma preocupação defensiva. Passamos a ver um Colo-Colo tentando evitar a zebra apostando nos contra-ataques. Foi aquele famoso "toma lá dá cá" com momentos bons dos dois lados. A torcida local sofreu demais até o último trilar do apito do árbitro. No fim, o favoritismo local foi confirmado apesar de todo o sufoco sofrido.


Troca de passes no ataque do clube alvinegro. Foto: Fernando Martinez.


Em toda a cobrança de escanteio alguém com um enorme guarda-chuva ia proteger os atletas. E não eram só do time visitante, como dá pra ver nessa imagem. Foto: Fernando Martinez.


Córner a favor do Colo-Colo já no segundo tempo. Foto: Fernando Martinez.

O placar de Colo-Colo 2-2 Deportes Copiapó colocou o Cacique na semi-final da Copa Chile para pegar o Unión Española. O time eliminou os "hispanos" e chegou na decisão contra o Universidad do Chile. O título acabou ficando com a equipe azul nos pênaltis. Da minha parte, ficou a ótima impressão de ter assistido um cotejo num estádio simplesmente genial. Foi certamente um dos mais legais que visitei nessa Magical Mystery Tour ao país sul-americano.

Saí do Monumental na boa e dali voltei ao hotel. No caminho parei um bar pensando em fazer aquela boquinha esperta e absolutamente necessária. Encontrei ali dois chilenos "muy borrachos" que se diziam corintianos e apaixonados pelo futebol brasileiro (vale registrar que a simpatia dos moradores locais foi um dos pontos altos de toda a viagem). Mandei bala numa pizza ótima e fui pra cama bem cedo. A agenda da sexta-feira marcava um bate-volta genial ao litoral. A Copa do Mundo sub-17 voltou ao cronograma numa rodada que foi um dos pontos altos da minha vida.

Até lá!

Fernando

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