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sábado, 12 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 6 de 13): Na bela Concepción, Ticos derrotam os Bafana Bafana


Minha estadia na República do Chile foi dividida em três partes. Após três dias e cinco jogos em Santiago, na chuvosa manhã da segunda-feira, 19 de outubro, peguei minhas malas e me mandei para o sul do belíssimo país, encerrando a Parte 1 da turnê. Meu destino era a cidade de Concepción, a segunda região metropolitana mais populosa e o maior centro industrial da terra presidida por Michelle Bachelet.

Acordei bem cedo e após um ótimo café da manhã, apreciei a linda vista dos Andes pela última vez, deixei o hotel - uma agradabilíssima surpresa no coração da capital - e fui rapidinho de metrô até a rodoviária. Como meu ônibus sairia às oito horas, me programei para chegar ali faltando vinte minutos para o horário marcado. Na teoria, tudo certo. Na prática...

Quem já pegou ônibus em alguma rodoviária da capital paulista sabe que não temos como comprar uma passagem do Tietê no Jabaquara, ou comprar um bilhete da Barra Funda e embarcar no Tietê, certo? Certo, só que na capital chilena não é bem assim. Comprei a passagem para Concepción num terminal enquanto o busão saía de outro, localizado a três (grandes) quarteirões de distância. Infelizmente confiei na informação incorreta passada pela moça do guichê e não me atentei aos detalhes.

O resultado desse vacilo foi que, faltando cerca de dez minutos para as oito horas, fui obrigado a percorrer - com ênfase no "correr" - quase um quilômetro debaixo de chuva carregando minha mala e uma pesadíssima mochila. Contrariando as expectativas, tive uma grande performance e, honrando as grandes apresentações de Jesse Owens e Carl Lewis, exatamente às 7:59 estava postado na frente do coletivo.

Sem conseguir falar direito e com o fôlego em falta fui buscar meu lugar e somente depois de um bom tempo a respiração voltou ao normal. Somente aí pude me aconchegar com propriedade para passar as próximas seis horas e meia seguintes ali dentro. Dentro MESMO, pois durante toda a viagem não houve nenhuma parada. Isso mesmo, o ônibus seguiu sem escalas, algo que eu nunca vi por essas bandas. Após dormir, ouvir música, mudar de poltrona umas três vezes, comer muita bobagem e apreciar as belas paisagens da primavera do Chile, cheguei na comuna fundada por Pedro de Valdivia.


Durante seis horas e meia, essa foi minha visão do ônibus que me levou até o sul do Chile. Foto: Fernando Martinez.


Detalhe do Terminal Rodoviario Callao, em Concepción. Foto: Fernando Martinez.


Dizer que o estádio fica em frente à rodoviária pode ser um exagero em muitos casos, não nesse aqui. Dez metros separam as duas construções. Foto: Fernando Martinez.


Fachada do belo Estadio Municipal de Collao. Foto: Fernando Martinez.

A rodoviária Penquista fica afastada do centro da cidade, mas é absurdamente perto do Estadio Municipal de Concepción Alcaldesa Ester Roa Rebolledo, também conhecido como Estadio Municipal de Collao, pois apenas uma rua separa os dois locais (para quem conhece, é mais perto do que a distância entre a rodoviária de Poços de Caldas e o Ronaldo Junqueira, por exemplo). Como estava de mala e cuia, não tive como ficar ali direto, então fui obrigado a fazer um bate-volta até o hotel para deixar meus pertences, só depois disso retornando em definitivo ao ponto de partida.

A correria foi plenamente justificada, já que estava lá para ver a rodada inicial do Grupo E da Copa do Mundo sub-17. Abrindo os trabalhos da chave, duas seleções que já faziam parte da minha Lista há algum tempo: África do Sul x Costa Rica. Vi o onze africano em 2012 num amistoso contra o Brasil no Morumbi e os Ticos duas vezes, uma no Pan de 2007 jogando contra Honduras e outra no 0x0 contra a Inglaterra pela Copa do Mundo do ano passado. Ou seja, nada de novo no front.

O ruim foi pensar que eu poderia ter visto um Costa do Marfim x Canadá no lugar desse jogo, mas infelizmente essas duas seleções foram eliminadas do Mundial pelos dois adversários da partida inaugural. Aliás, vale dizer que a presença sul-africana na competição é histórica, pois é a primeira vez que a equipe se classificou para a Copa do Mundo sub-17, enquanto os costarriquenhos chegaram à sua nona participação em todos os tempos.

Já tinha visto fotos do local, porém o Ester Roa ao vivo é muito mais bonito. O estádio foi inaugurado em 1962 e é a casa do Deportes Concepción e do Universidad de Concepción. A cancha passou por reformas visando a disputa da Copa America 2015 e também do Mundial, tendo atualmente a capacidade de 30.448 espectadores. Foi ali que o Brasil foi eliminado pelo Paraguai na competição continental desse ano.

O mais legal de tudo nessa minha estreia na capital do rock chileno foi a sempre agradável presença do senhor frio, na única vez que realmente vi uma peleja com baixa temperatura em toda a turnê. O termômetro marcava 12 graus - com sensação térmica ainda menor por causa do vento - quando encontrei meu lugar na colorida arquibancada. Fiz uma rápida boquinha com guloseimas locais e não demorou para as duas seleções irem no gramado.


Times perfilados para a execução dos hinos nacionais. Foto: Fernando Martinez.


Roberto Cordoba se preparando para cobrar falta a favor da Costa Rica. Foto: Fernando Martinez.




Três momentos do primeiro tempo de África do Sul x Costa Rica. Foto: Fernando Martinez.

Sem time novo e sem saber nada sobre as seleções, confesso que não sabia o que esperar dessa peleja. Por sorte a partida foi boa e teve a Costa Rica atuando melhor, para a felicidade dos animados torcedores da América Central que estavam reunidos próximos a mim. Os Ticos abriram o placar logo aos sete minutos, quando Kevin Mases completou um preciso passe da direita. A África do Sul tentou embalar para chegar ao empate, só que a afobação dos seus atletas mostrou que essa seria uma tarefa bem complicada.

Jogando na boa, a Costa Rica tomou o primeiro susto apenas no começo do tempo final, em boa cobrança de falta de Dlala que obrigou o goleiro-capitão Alejandro Barrientos a fazer boa defesa. Minutos depois aconteceu a maior chance do empate nos pés do camisa 17 Khanyisa Mayo. Pena que o jogador mandou mal e conseguiu chutar uma bola cruzada da direita quase fora do estádio, mesmo com o arqueiro da Costa Rica batido no lance.


Mbatha, camisa 8 da seleção africana, atacando pela esquerda no tempo final. Foto: Fernando Martinez.


Visão geral do belo estádio de Concepción, sede do Grupo E da Copa do Mundo sub-17. Foto: Fernando Martinez.


Khanysa Mayo, camisa 17, tentando o gol de cabeça. Foto: Fernando Martinez.

No lance seguinte, o castigo. Em chute do camisa 14 Roberto Córdoba, a bola pegou no ombro do zagueiro Katlego Mohamme, porém o árbitro da Malásia se enganou e acabou marcando penalidade máxima. Andy Reyes foi para a cobrança e aumentou a vantagem dos centro-americanos. No restante do tempo final, os Bafana Bafana fizeram uma pressão meio sem graça em busca do gol de honra. Aos 45, Mayo, aquele mesmo, diminuiu o prejuízo numa cabeçada meio sem querer.

No fim, o placar final ficou em África do Sul 1-2 Costa Rica. Ao final da primeira fase, os sul-africanos foram eliminados com um empate e duas derrotas, enquanto os Ticos terminaram na vice-liderança da chave. Na segunda fase a equipe surpreendeu e eliminou a forte seleção francesa, encerrando a bela campanha apenas nas quartas-de-final, sendo derrotada pela Bélgica pela contagem mínima.


Andy Reyes marcando o segundo gol centro-americano em cobrança de pênalti. Foto: Fernando Martinez.


Visão do ataque da África do Sul no final do jogo. Foto: Fernando Martinez.


De tanto insistir, Mayo conseguiu marcar o gol de honra no último minuto. Meio sem querer, é verdade, mas vale mesmo assim. Foto: Fernando Martinez.


Placar final da partida que abriu os trabalhos do Grupo E do Mundial sub-17. Foto: Fernando Martinez.

Com os primeiros 90 minutos encerrados, as atenções se voltaram para o jogo de fundo. De todos os oito que eu vi durante o Mundial, esse era o mais esperado, primeiro por ter a chance de "matar" dois times e, claro, por serem duas seleções simplesmente sensacionais. Sem dúvida esse foi um dos pontos altos da minha viagem.

Até lá!

Fernando

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 5 de 13): Uma história (quase) centenária na última divisão


Depois de quatro pelejas, fechei o primeiro e único final de semana completo da minha turnê pelo Chile com chave de ouro num jogo absolutamente sensacional, o meu segundo na 20ª rodada do Campeonato Nacional de Fútbol – Cuarta División Sub-23 (ou simplesmente Tercera División B) em seu Grupo Norte.

O cronograma original marcava um compromisso da Primera B, mas quando descobri essa partida da última divisão nacional a troca foi imediata. Afinal, não é toda hora que temos a chance de ver o genial Club Deportivo Ferroviarios de Chile em ação. O adversário do Ferrito foi o Club Deportivo Quintero Unido Fútbol Club, Social y Cultural e o palco desse duelo foi o simpaticíssimo Estadio Población Los Nogales, situado no bairro Estación Central.



Ferroviarios de Santiago e Quintero Unido posados antes do confronto válido pela 20ª rodada da Tercera B. A faixa com os atletas aurinegros homenageia "Checho", jogador que se machucou durante a competição. Fotos: Fernando Martinez.

A trajetória da quase centenária agremiação através dos tempos é tão peculiar que merece ser contada aqui. O clube foi fundado em 14 de julho de 1916 representando, como o próprio nome já diz, os funcionários dos "ferrocarriles" da capital chilena. A equipe passou a disputar os certames da Asociación de Football de Santiago em 1927 e em 1933, ainda amador, viu a Liga Profesional de Football de Santiago ser fundada e o primeiro campeonato nacional profissional ser realizado.

No ano seguinte a AFS (amadora) se uniu à LPF (profissional) e essa união fez com que a segunda edição do campeonato nacional tivesse a presença de doze equipes. Essa acabou sendo a primeira e única vez que o aurinegro disputou o principal certame do país com sua denominação original. Ao final daquele torneio, os seis clubes amadores "recém-promovidos" foram mandados para a Divisão de Honra da LPF, uma espécie de segunda divisão, mas sem promoção.

A equipe seguiu com suas atividades e se sagrou cinco vezes campeã de torneios menores. Em 1947 o "Locomotora" foi uma das quinze agremiações que formaram a División de Ascenso e nos três primeiros anos - 1947/1948/1949 - emplacou um tri-campeonato. O acesso viria somente com o terceiro título, porém não foi bem assim que a história seguiu. Corta a cena.

O Club de Deportes Badminton jogava a primeira divisão desde seu início, só que depois de 17 temporadas foi rebaixado em 1949. Alegando que havia sido um dos "fundadores" da principal competição chilena, o time entrou justiça pleiteando permanecer na mesma divisão. A Asociación Central de Fútbol cancelou o descenso e consequentemente também cancelou o acesso do Ferroviários. Para não dar briga, a saída adotada foi a fusão das duas agremiações, nascendo então o Club Deportivo Ferrobádminton, com dirigentes dos dois clubes originais.

O Ferrobádminton ficou 16 temporadas na primeira divisão e após duas presenças na segundona, 1967 e 1968, deixou de existir em 1969. Os dirigentes do antigo Badminton desfizeram a fusão e se mandaram para Curicó (só para constar, a nova velha equipe jogou até 1973, quando deu seu lugar para o Curicó Unido, time que existe até hoje).

O escrete aurinegro voltou a desfilar pelos gramados do país e chegou muito perto se conquistar o acesso para a principal divisão em duas oportunidades. A primeira em 1972, quando foi vice-campeão três pontos atrás do Palestino (subia somente o primeiro colocado), e a segunda em 1974 quando ficou em terceiro, dois pontos atrás do campeão Santiago Morning e do vice Everton (subiam os dois primeiros).



O espetacular Ferrobadminton de 1963 e o time do Ferroviarios de 1972, ano em que foi vice-campeão da segunda divisão, ficando a dois pontos da elite. Reprodução: Flickr oficial do Ferroviarios.

O clube ensaiou mais algumas fusões nos anos seguintes - uma com o Norte Unido de Arica e outra numa mudança para a cidade de Talagante - e permaneceu na segundona até 1982, ano em que disputou seu último campeonato profissional. Desde então o escrete preto e amarelo perambula entre a terceira e a quarta divisões, tendo conquistado o título da "Cuarta División de Chile" em 2003.

Por conta de dívidas da Empresa de Ferrocarriles, a equipe perdeu sua famosa casa no final de 2012. Inaugurado em 1941, o Estadio Ferroviario Hugo Arqueros Rodríguez foi demolido e hoje a equipe manda suas partidas no Estadio Población Los Nogales, campo acanhando (e genial) no bairro de Estación Central que foi inaugurado há três anos.

Depois de conhecer um pouco mais dessa história é impossível não fazer um paralelo com vários clubes históricos do Brasil que foram praticamente desaparecendo do cenário. Dá para perceber que não é exclusividade verde e amarela ver clubes tão significativos em determinadas épocas sumindo. Mesmo com todas as dificuldades, os aurinegros estão animados com a chegada do centenário em 2016 e prometem várias ações para celebrarem a data. A marca é tão superlativa que basta dizer que os três principais times do país - Colo-Colo, Universidad de Chile e Universidad Catolica - são mais novos do que o Ferrito. Definitivamente não é pouca coisa.

Embora seja bem mais novo, o adversário dos Tiznados também tem relativa tradição nas divisões de acesso. O Club Deportivo Quintero Unido Fútbol Club, Social y Cultural foi fundado em 10 de junho de 1962 e permaneceu disputando as ligas amadoras da região de Valparaíso até 1980. Em 1981 o clube foi um dos que entrou na primeira edição da terceira divisão da história. Logo no segundo ano a equipe conquistou o acesso e passou cinco temporadas na segundona.

Após o rebaixamento de 1987 o Quintero permaneceu na terceira até 1999 (com uma breve passagem na quarta em 1998), quando abandonou o futebol. Depois de muitos anos longe dos gramados, a diretoria resolveu recolocar o time em campo no segundo semestre de 2013. A campanha na temporada de retorno foi bastante fraca, porém no ano passado a performance foi muito melhor e o clube alcançou a segunda fase.

Nas disputas da Tercera B desse ano os dois clubes já estavam sem chance de classificação para a fase decisiva quando se enfrentaram em 18 de outubro (no turno, a vitória foi do time azul pela contagem mínima). O Grupo Norte teve a presença de doze equipes e a chave teve o Deportes Recoleta e o Colina se destacando desde o início, tanto que os dois garantiram as duas vagas no quadrangular final.


O genial ingresso dos jogos do Ferrito. Foto: Fernando Martinez.


Para variar, a Cordilheira também foi destaque no cenário geral dessa partida. Foto: Fernando Martinez.


Capitães dos times e trio de arbitragem designado para a partida. Foto: Fernando Martinez.


Bandeira do onze aurinegro tremulando na arquibancada do Los Nogales. Foto: Fernando Martinez.


Torcida animadíssima do Quintero Unido marcando presença. Foto: Fernando Martinez.

Dito tudo isso, mais uma vez preciso citar o ótimo site terceradivision.cl pela cobertura que fazem desse campeonato. Por conta dele fiquei sabendo a exata localização dos jogos de sábado e domingo. O estádio de Los Nogales fica próximo ao centro de Santiago, e chegar ali, como aconteceu em todas minhas partidas na capital, foi muito fácil usando o metrô.

Saindo de La Moneda andei seis estações até chegar na San Alberto Hurtado, ambas na Linha 1. Dali segui a pé pela Toro Mazote, 5 de Abril e pela Padre Vicente Irarrázabal, em quase dois quilômetros de andanças. O bairro é repleto de casas mais humildes, com muitas construções antigas e ainda bem conservadas. O detalhe surreal foi parar para pedir informação para uma senhora e descobrir que ela é mãe de um dos músicos da OSESP e que atualmente ele mora próximo do Parque da Luz, ou seja, do lado da minha casa (!). O mundo realmente é um lugar pequeno demais.

Após vinte e tantos minutos de caminhada cheguei numa das várias canchas da capital. Já vi um monte de partidas grandes, inclusive da Copa do Mundo, mas confesso que chegar num lugar tão "ermo" futebolisticamente falando foi simplesmente sensacional. O Los Nogales também é um estádio "drive-in" pois quem está na rua consegue assistir a peleja sem pagar ingresso. Eu, claro, fiz questão de comprar meu "boleto" por 1.500 pesos chilenos e logo estava na atual casa do Ferrito.

Com total boa vontade imagino que o local tenha capacidade para 100 pessoas, algo que não impede a prática do futebol. São duas arquibancadas de madeira dispostas atrás de um dos gols e uma feita de trilhos de trem (!) do lado oposto dos bancos de reservas. O complexo é uma espécie de centro comunitário do bairro de Estación Central. Agora, legal mesmo foi ver torcedores do Ferroviários e do Quintero Unido, esses animadíssimos e sem parar de cantar por um minuto sequer.


Chute da entrada da área na primeira boa chance do time visitante. Foto: Fernando Martinez.


Zagueiro local prestes a mandar a bola pra longe. Foto: Fernando Martinez.


Jogada no meio de campo. Foto: Fernando Martinez.


Marcação firme de atleta do Ferrito. Foto: Fernando Martinez.


Um dos poucos ataques perigosos do time da casa no tempo inicial. Foto: Fernando Martinez.

E foi justamente a torcida do time visitante quem teve mais motivos para comemorar. O onze local não fez uma boa apresentação e seu adversário, como quem não quer nada, se aproveitou disso com golpes certeiros. No tempo inicial o Ferrito ainda tentou emplacar uma pressão, sem sucesso. Jogando na base dos contra-ataques, os azuis foram fatais. Na primeira grande investida o time avançou pela direita e, depois de chute cruzado, abriu o placar no meio do tempo inicial.

A partida foi para o intervalo no 0x1, e no segundo o time de Santiago teve mais posse de bola, porém se afobou demais, pecando sempre no último toque. Jogando na boa, a equipe azul levou enorme perigo em ataques pelas laterais. Por volta da metade do tempo final aconteceu o golpe de misericórdia. Um dos atacantes visitantes atacou pela esquerda e cruzou a bola. Livre de marcação, outro avante apareceu livre na pequena área e tocou de leve para o fundo das redes.


Ataque do Quintero Unido pela direita. Ao fundo, transeuntes dando uma olhadinha na peleja. Foto: Fernando Martinez.


Boa saída do goleiro visitante. Foto: Fernando Martinez.


Lance ríspido no meio de campo. A entrada machucou o jogador do Ferroviarios. Foto: Fernando Martinez.



Mais dois lances do confronto válido pela Tercera B chilena. Em ambas, dá pra ver torcedores do lado de fora do estádio acompanhando a partida Fotos: Fernando Martinez.

No fim, o fator casa não deu resultado e a peleja ficou em Ferroviarios 0-2 Quintero Unido. Ao final das 22 rodadas o time preto e amarelo ficou na quinta posição do Grupo Norte da Tercera B com 37 pontos, exatamente dez atrás da zona de classificação. Uma campanha razoável para a quase centenária equipe e que deixa esperançosa sua torcida para o aguardado ano do centenário.

O Quintero teve um início claudicante e um final de campeonato magistral. A equipe perdeu quatro vezes nas seis primeiras rodadas, mas nas dez últimas ficou invicta e conseguiu emplacar uma série de oito triunfos seguidos nos oito últimos jogos, terminando em terceiro lugar e ficando quatro pontos atrás do Colina, segundo time classificado. Detalhe: na sequência de oito vitórias, a equipe chegou a fazer um 9x0 e um 9x1, respectivamente contra o Luis Matte Larraín e o El Olam, ambos fora de casa.

Com a sessão esportiva encerrada era hora de voltar para o meu QG no centro da cidade e passar a última noite em Santiago na primeira escala da turnê. O relógio já marcava mais de oito da noite e o sol ainda resistia no céu, iluminando de forma incrível a Cordilheira dos Andes. Fiz o caminho de volta sem pressa, parando em pontos estratégicos, primeiro para jantar e depois para garantir minha passagem para a viagem da segunda-feira. Após três dias na capital, a agenda marcava uma semana repleta de viagens e muitos quilômetros percorridos dentro do país.

Até lá!

Fernando

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

JP no Chile (Parte 4 de 13): Club de Deportes Cobreloa, 13 anos depois


A rodada tripla do sábado, 17 de outubro, e as doze horas perambulando por Santiago me deixaram no bagaço. Era meio óbvio que precisava de uma bela noite de sono para poder cumprir meu cronograma no domingo. Dormi bem até demais e por muito, muito pouco, não perco a primeira partida do dia 18. Quem me salvou no último minuto da prorrogação foi o insistente alarme do celular e o toque com um clássico do Tubeway Army.

Acordei no susto com tempo apenas de escovar os dentes e vestir a primeira roupa que encontrei. Não demorei quase nada e logo já estava a caminho do Estadio Bicentenario Municipal de La Florida, casa do Audax Italiano. Mas não era jogo dos "Audinos" que iria assistir, e sim um duelo entre o Athletic Club Barnechea e um dos times mais sensacionais da América do Sul, o Club de Deportes Cobreloa. A peleja foi válida pela 10ª rodada do primeiro turno do Campeonato Nacional de Primera B 2015-2016, a segunda divisão deles.

É fato que, pelo menos para a minha geração, os Zorros do Deserto fazem parte de um seleto grupo de clubes geniais do continente, muito por conta dos vice-campeonatos continentais em 1981 e 1982, o primeiro numa decisão antológica contra o Flamengo. Fundado em 1977, o time da cidade de Calama subiu para a primeira divisão nacional logo no seu primeiro campeonato e sem sobra de dúvida marcou época dentro e fora do seu país.

Tirando os três grandes do futebol chileno (Colo-Colo, Universidad do Chile e Universidad Catolica), o Cobreloa frequentemente é considerado o "quarto" grande da terra de Pablo Neruda. Algo natural contando as oito conquistas nacionais e também as treze participações na Libertadores. Só que esse brilhante retrospecto não impediu a queda do time pela primeira vez depois da campanha ruim na temporada 2014/15.

Não é comum a equipe visitar o Brasil nos últimos tempos, mas já havia visto o time ao vivo em 14 de março de 2002, uma quinta-feira à tarde, numa derrota de 3x0 sofrida para o São Caetano na Taça Libertadores daquele ano - confronto que dificilmente acontecerá novamente. Treze anos depois, já estava na hora de ver novamente o time laranja.

Se não colocaria o onze visitante na Lista, a entrada do Barnechea era uma agradável e inesperada surpresa grantida meio de última hora. Fundado em 1929, os Huaicocheros permaneceram amadores até 1983, quando fizeram parte da então recém-criada quarta divisão. Depois de vários anos de luta nas divisões de acesso, o time chegou à elite chilena na temporada 2014/15, mas acabou rebaixado para a Primera B depois de apenas um campeonato na elite junto com o próprio Cobreloa e Ñublense.

Apesar de mandar suas partidas de forma mais frequente no Estadio San Carlos de Apoquindo, nesse ano os compromissos do onze azul e amarelo como mandante foram marcados para o La Florida. O local é mais afastado do centro de Santiago, porém de fácil acesso pelo metrô. Saí da Estação La Moneda, da Linha 1, fiz baldeação na Estação Tonalaba e dali fui até a Estação Rojas Magallanes, da Linha 4. Trajeto feito em cerca de meia hora.

Fiz o restante do percurso a pé, primeiro pela Avenida Vicuña Mackenna, depois pela Calle Enrique Olivares, num total de 1500 metros. Fui na boa prestando bastante atenção no arborizado e simpático bairro e também nas suas simpáticas residências. Logo estava na entrada principal do belíssimo estádio, inaugurado em 1986 e reformado completamente para a Copa do Mundo Feminina sub-20 em 2008.

Já conhecia a fama da torcida dos Zorros do Deserto, mas confesso que me surpreendi com o alto número de camisas laranjas nas arquibancadas. Mesmo atuando a mais de 1200 quilômetros de distância da sua sede, muitos "Loínos" pagaram ingresso para a apoiar a equipe na luta pelo acesso. Vale registrar que apenas duas equipes sobem - o campeão geral e o vencedor do confronto entre os vencedores da Liguilla de Apertura e da Liguilla de Clausura (cada um reunindo os quatro melhores do turno e do returno) - e a tarefa não está nada tranquila para os postulantes à promoção.


Estação Rojas Magallanes, a mais próxima do estádio. Foto: Fernando Martinez.



Dos detalhes da fachada do Estadio Bicentenario Municipal de La Florida, casa do Audax Italiano. Fotos: Fernando Martinez.


Torcida do Cobreloa marcando presença no La Florida. Foto: Fernando Martinez.

Antes dessa rodada o Cobreloa ocupava a vice-liderança com 19 pontos, um atrás do líder Deportes Temuco, enquanto o Barnechea era apenas o 12º colocado com nove. A diferença de dez pontos não entrou em campo, e as duas agremiações fizeram uma partida bastante equilibrada no gramado sintético do La Florida. De todas as pelejas que assisti essa foi a tecnicamente mais fraca, só que nem isso me desanimou, muito pelo contrário.

Como aconteceu em toda a minha turnê pelo país sul-americano, demorou bastante para cair a ficha que eu estava participando daquele momento único. E se não teve muita emoção dentro de campo, fora teve muita, e consegui aproveitar cada segundo me situando dentro do raro contexto futebolístico em que estava inserido. Fiquei os 90 minutos isolado num canto da arquibancada central com a cabeça a mil e com a presença (mais uma vez) da Cordilheira dos Andes completando a paisagem.


As coloridas arquibancadas do La Florida. Foto: Fernando Martinez.




Lances de Barnechea e Cobreloa, valendo pela 9ª rodada do primeiro turno da Primera B do Chile. Fotos: Fernando Martinez.


Enquanto a peleja rolava, muitos se divertiam em campos de grama sintética ao lado do estádio. Foto: Fernando Martinez.

O onze local, empurrado por uma pequena e barulhenta torcida, conseguiu surpreender os visitantes e criou duas boas oportunidades de gol com Boris Sandoval e Ledesma, uma no primeiro e outra no segundo tempo. Os laranjas responderam com um lance sensacional salvo em cima da linha, o melhor de toda a tarde, e um gol anulado de Nino Rojas aos 29 minutos do tempo final.

Os últimos quinze minutos foram todos do escrete calameño, porém seus atacantes não conseguiram vencer o arqueiro do onze local. No fim, vi meu único placar em branco de toda a viagem: Barnechea 0-0 Cobreloa. O Barnechea continuou indo mal na sequência do turno e terminou a fase ocupando a penúltima posição. Caso não melhore no turno final, corre sérios riscos de voltar para a terceira divisão.


Corredor de acesso para as arquibancadas do La Florida. Foto: Fernando Martinez.


Zagueiro do Barnechea salvando gol do Cobreloa em cima da linha. Foto: Fernando Martinez.


Grande corte do setor defensivo local em mais uma boa chance de gol do onze calameño. Foto: Fernando Martinez.


Marcação dupla em cima de atacante do time laranja. Foto: Fernando Martinez.


Placar final da partida, o único 0x0 que vi na minha turnê pelo Chile. Foto: Fernando Martinez.

Os laranjas terminaram o primeiro turno com 27 pontos, sete atrás do campeão Deportes Temuco. O time pegou o Everton na semi da Liguilla de Apertura e foi eliminado depois de ser derrotado dentro e fora de casa. Fica para o segundo turno a esperança de acesso para a fanática torcida calameña. Fico na torcida, pois é impossível secar um time tão genial.

Ainda demorei para deixar o estádio após o apito final, e na saída ainda comprei uma linda bandeira dos Zorros, hoje ocupando um lugar de destaque na minha coleção de souvenirs esportivos. Peguei meu caminho de volta até o centro de Santiago para um rápido pit stop, já que tinha mais jogo no final da tarde, em 90 minutos absolutamente sensacionais.

Até lá!

Fernando