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sexta-feira, 10 de junho de 2016

JP na Argentina 11 (3/9): Fénix x San Telmo no Barracas Central

Texto e fotos: Fernando Martinez


O cronograma de futebol da minha segunda Magical Mystery Tour por Buenos Aires pediu passagem mais uma vez na segunda-feira, 11 de abril. A manhã foi bastante atribulada e no cardápio do almoço teve o imperdível Duplo Quarteirão, ou Doble Cuarto de Libra con Queso, sensacional sanduba que lamentavelmente só não existe no nosso país. Bom que para chegar no McDonald's do outro lado da rua nem precisei andar muito, já que precisava só ultrapassar as 117 faixas de pedestres na Avenida 9 de Julio.

Terminei a soberba refeição e retornei ao hotel. Dali, peguei um dos glamourosos táxis da capital portenha com destino ao bairro de Parque Patricios. Antes de ir pro meu terceiro jogo na capital do país vizinho, passei pelo maravilhoso e gigantesco Estadio Tomás Adolfo Ducó, casa do Huracán. Tentei comprar meu ingresso para a peleja do Globo no dia seguinte, mas o local estava completamente deserto. Contarei essa história daqui a dois posts.

Ao lado da cancha existe uma das várias linhas dos "trenes" suburbanos da cidade. Bastava ultrapassar a linha férrea e então chegaria ao meu destino. Como o local está em obras, tive que dar uma volta de dois quilômetros a pé, passando ao lado da tradicionalíssima Estação Buenos Aires, e então encontrei o acanhado Estadio Claudio Chiqui Tapia, casa do Barracas Central. Detalhe: não era uma apresentação do time da casa, e sim o duelo entre o Club Atlético Fénix e o genial Club Atlético San Telmo, em compromisso do Campeonato de Primera B, a terceirona nacional. Jogo Perdido com JP maiúsculo.


Fachada do Estadio Claudio Chiqui Tapia, casa do Barracas Central e usado pelo Fênix em 2016


Escudo do genial Club Atletico Barracas Central que fica na entrada da praça de esportes



Detalhes da arquibancada oposta e das cabines de imprensa

Fundado em 1948 no bairro de Colegiales, o Fénix é relativamente novo e não tem tantas glórias no seu currículo. Até hoje eles conquistaram três canecos da Primera D (2000, 2004/05 e 2011/12) e sempre perambularam entre a C e a D. Desde 2013 jogam a Primera B Metropolitana, só que sem participações de destaque. Vale dizer que os militares "pegaram emprestado" o estádio deles na época da ditadura, fazendo com que ficassem sem campo pra atuar. Nesse ano, usam a aconchegante casa do Barracas Central.

Diferente do seu adversário, o centenário escrete Candombero é bem mais tradicional. Fundado em 1904, a equipe existiu até 1933 e foi fechada por problemas financeiros. Refundada em 1942, fez parte da Primera C e desde então passeia entre essa e a Primera B. Em 1975 conquistaram o acesso e alcançaram a primeira divisão, porém em 1976 foram mal e terminaram o certame na última posição, indo parar outra vez na Primera B. Na história, eles tem os títulos da Primera C de 1949, 1956, 1961 e 2015.



De longe, as imagens dos times posando para a imprensa argentina

Na edição 2016 da Primera B, outro dos campeonatos de transição da AFA, o Fénix vinha fazendo grande campanha e passou sete das nove rodadas realizadas na liderança. A agremiação perdeu o primeiro lugar depois da derrota em casa contra o Deportivo Español. Atuando contra o San Telmo, que ainda não havia vencido longe dos seus domínios, parecia o cenário perfeito para a retomada da ponta da tabela.

Genial foi que, por motivos óbvios, os bilheteiros descobriram que eu não era dali no momento em que comprei o ingresso. Quando disse que conhecia o Fénix, ficaram super orgulhosos, assim como em todos os outros locais que visitei. É fato que a admiração dos argentinos pelo futebol tupiniquim é bem grande. A hinchada mandante apareceu em número razoável, mas quem apareceu bem mesmo foi a torcida visitante. A rapaziada ficou atrás do gol da entrada e não parou de cantar por um momento sequer.


Jogador do San Telmo tentando se desvencilhar da forte marcação do Fênix


Ataque visitante no começo da peleja

Mesmo caído, atleta do onze local tentando manter o domínio da bola


Boa chegada do San Telmo pela esquerda do seu ataque

Os torcedores candomberos mostraram um fôlego incansável, ainda mais com a ótima atuação da sua equipe. A boa campanha do Fénix não foi ao gramado e eles sofreram com o rápido ataque visitante, principalmente o camisa 7 Nahuel Oviedo, ex-Huracán, Ele abriu o placar logo aos três minutos e deixou o cenário favorável ao San Telmo. Os donos da casa tentaram o gol de empate porém o arqueiro Anchoverri foi seguro debaixo da meta.

Antes do intervalo chegar o árbitro errou feio e deixou de marcar um pênalti a favor do San Telmo. O lance acabou nem fazendo falta pois aos dez da segunda etapa o escrete azul e celeste ampliou sua vantagem, de novo com Nahuel Oviedo. O gol foi um duro golpe contra o Fénix e apesar de tentarem fazer aquele maroto abafa, nada dava certo. O tempo foi passando e a boa vitória visitante se consolidou quando o árbitro Lucas di Bastiano apitou pela última vez.


Disputa de bola pelo alto com direito a poses plásticas no gramado da cancha do Barracas


Visão geral de Fênix x San Telmo sob a agradável temperatura de outono em Buenos Aires


Chute de longe do onze local buscando melhor sorte no marcador

No fim, aplausos aos vencedores e também para os vencidos, numa demonstração de espírito esportivo que não estamos tão acostumados a ver. O placar final de Fénix 0-2 San Telmo impediu que o clube de Colegiales chegasse novamente à liderança da competição. O líder é o "rival" de bairro, o próprio Colegiales. Já os candomberos subiram da décima para a sexta posição, agora com 15 pontos ganhos. Da minha parte, seis times e três canchas novas em três dias de viagem.

Voltei de táxi para o centro de Buenos Aires com a ideia fixa de curtir o ambiente noturno eletrizante novamente. Na terça-feira retomei a agenda e fiz a minha primeira (e única) rodada dupla em toda a viagem. Na pauta, o jogo mais perdido da minha vida (recorde que durou seis dias) e clima de Libertadores dos anos 70 no ar. Foi sensacional.

Até lá!

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quarta-feira, 8 de junho de 2016

JP na Argentina 10 (2/9): Triunfo dos Mil Rayitas no Islas Malvinas

Texto e fotos: Fernando Martinez


Depois de curtir a primeira noite em Buenos Aires com direito a um passeio genial pelo maravilhoso centro da capital, o domingo começou não tão cedo e logo o cronograma futebolístico pediu passagem. Pela 11ª rodada do Campeonato de Primera B Nacional, fui ao genial Estadio Islas Malvinas para o sensacional confronto entre All Boys e Los Andes. O primeiro com 103 e o segundo com 99 anos de vida. Ou seja, pouca tradição em campo.

Diferente do que fiz na minha primeira viagem à Buenos Aires em 2009, dessa vez fui a alguns cotejos de táxi. Isso pois são bem baratos e o custo benefício vale muito a pena. Também escolhi isso porquê, como a agenda estava cheia, deu mais tempo para fazer coisas típicas de turistas comuns. Saí do meu QG na Avenida 9 de Julio e percorri pouco mais de 12 quilômetros até o bonito bairro de Monte Castro, local aonde se situa a cancha blanquinera.

O estádio, inaugurado em 1963 num duelo contra o Deportivo Riestra, fica no meio de uma simpática vizinhança repleta de bonitas casas de classe média. Por ser totalmente residencial, não havia nenhuma movimentação além da rapaziada chegando para o cotejo. A capacidade atual dali é de 21.500 pessoas, obtida na última reforma em 2007. Em 2008 o local ganhou torres de iluminação, permitindo a realização de jogos noturnos. Não que seja uma arena super moderna com instalações de primeira linha, longe disso, mas ele segura bem as pontas.

Uma das coisas mais peculiares da cancha é que quem fica no nível do gramado não consegue ver a arquibancada superior do lado oposto. O teto é tão baixo que fecha completamente o campo de visão. Vale também dizer que a proximidade do gramado é genial. Como fiquei ali no primeiro tempo, vi o ataque da casa muito de perto. Fazia sol e a temperatura era deliciosa, cerca de 18 graus. Um verdadeiro presente dos deuses do futebol.


Fachada do Estadio Islas Malvinas com todos os escudos da história do All Boys


Placa dando boas vindas aos torcedores


Visão do estádio vazio. Uma bela cancha, sem sombra de dúvida

Quem acompanha o futebol argentino sabe que a AFA, diferente do que temos aqui, só divulga a tabela desmembrada da rodada dois dias antes da realização da mesma. Se isso é ruim para quem mora lá imagina pra quem é de fora e quer se programar de alguma forma. Dessa vez dei sorte, pois calhou de ver times que sempre estiveram na lista de metas a serem alcançadas. O All Boys, fundado em 15 de março de 1913 como All Boys Athletic Club, era um deles.

O alvinegro nunca ficou de fora do certame nacional, e já passeou pelos cinco níveis do certame portenho. A grande parte das participações foi na segunda divisão, competição que venceu em 1972. Eles também conquistaram a terceirona em 1946, 1950, 1992-93 e 2007-08. Foi legal colocar essa agremiação na Lista, porém é fato que assistir uma apresentação do genial Club Atlético Los Andes, fundado em 1917 e dono de um dos mais belos uniformes do futebol portenho, foi ainda mais sensacional.

Conheci o CALA ainda moleque numa Placar dos anos 70 e desde então sempre me interessei pelos rumos do clube. A equipe de Lomas de Zamora é apelidada de "Mil Rayitas" por conta da sensacional camisa cheia de listras verticais vermelhas e brancas. São tantas que de longe parece que a vestimenta é cor de rosa. Já tinha ouvido falar sobre e ao vivo a impressão é exatamente essa. Fiquei um bom tempo acreditando que a camisa era rosa mesmo.

Campeões da Primera C em 1938 e 1957 e da Primera B em 1960, nunca mais levantaram um caneco de um torneio oficial. Por seis vezes disputaram a primeirona e foram recém-promovidos à Primera B Nacional depois de vencerem a Zona B do Campeonato de Primera B 2014. O onze visitante chegou a esse duelo ocupando a ótima sexta posição entre os 22 participantes, enquanto o All Boys era o 15º. O favoritismo, apesar de atuar longe de casa, era do El Grande del Sur.


Atletas se cumprimentando antes do apito inicial


De longe até parece que a camisa do Los Andes é rosa. Cortesia das inúmeras listras em branco e vermelho, o que deixa a camisa mais genial 


Goleiro do All Boys se esticando todo para fazer belíssima defesa no primeiro tempo


Escanteio a favor do time da casa

Esse favoritismo entrou em campo e desde o início os visitantes tomaram a inciativa. Aos oito minutos, em boa jogada do volante Marcelo Scatolaro, a bola foi tocada para Emanuel Moreno. O camisa 10 definiu de voleio e o goleiro Gastón Losa fez boa defesa. O mesmo Moreno quase abriu o placar aos 25 em outro belo chute e mais uma boa defesa de Losa. O onze mandante não conseguia fazer nada e aos 34 o CALA finalmente abriu o marcador com Rodrigo Salinas acertando um chutaço de canhota que entrou no ângulo.

O All Boys se viu na obrigação de sair mais pro jogo depois de sofrer o tento. Os locais criaram dois momentos, um deles com Vazquez cara-a-cara e outro com uma cabeçada firme de Germán Lessman que bateu na trave de Maximiliano Gagliardo. O tempo inicial chegou ao fim com a vantagem visitante e eu fui fazer aquela boquinha esperta com deliciosas hamburguesas vendidas na pequena (e concorrida) lanchonete. Mesmo com os preços não sendo tão baratos quanto em 2009, deu para matar a fome de forma satisfatória.


Cobrança de falta no ataque alvirrubro


Ataque do All Boys pela esquerda sob o atento olhar dos defensores do Los Andes


Camisa 11 do "Mil Rayitas" com a marcação adversária

No tempo final fui até a parte alta da arquibancada e a visão dali é mais ampla do que a do anel de baixo. O All Boys voltou com mudanças no time e isso fez com que a equipe melhorasse. Aos quatro minutos uma alteração já deu resultado quando Facundo Nassif derrubou Mauro Milano dentro da área e cometeu pênalti. Germán Lessman, artilheiro do certame e apelidado de "Rooney da Floresta", bateu bem e deixou tudo igual.

Com o empate, os blanquineros se animaram em busca da virada. Facundo Nasif, que tinha tomado o amarelo no lance do pênalti, recebeu o segundo e foi expulso de campo aos 21 minutos. O Los Andes se retraiu e viu os donos da casa partirem com tudo na tentativa de virar o marcador. Apesar da insistência, o domínio não se traduziu em gols.

Aos 35, o CALA se aproveitou de um grande vacilo da zaga mandante. Francisco Martinez, mais um primo perdido pelas Américas, avançou e foi derrubado fora da área. O árbitro, totalmente fora do lance, marcou pênalti. Eu estava na linha da falta e posso dizer que ela foi MUITO fora. A reclamação local não adiantou e Walter García bateu bem a penalidade, fazendo o segundo dos visitantes. O tento foi um duro golpe nas pretensões blanquineras, e quando o jogo terminou não teve choro nem vela, revoltando a hinchada.


Visão geral da arquibancada principal do Islas Malvinas com os hinchas locais


Camisa 2 se preparando para tentar o gol mesmo de longe


Detalhe do gol do All Boys, marcado em cobrança de pênalti


Num lance polêmico, o Los Andes passou de novo à frente do marcador em novo pênalti


Placar final da peleja e derrota do onze local

O resultado de All Boys 1-2 Los Andes colocou o "Mil Rayitas" na terceira posição com 19 pontos, seis atrás do líder Talleres, da Primera B Nacional após onze rodadas realizadas. A equipe da Floresta caiu para a 16ª posição com 12 pontos, se complicando ainda mais. Da minha parte, ficou a alegria de ter incluído dois times absolutamente geniais na Lista. Ainda teria mais na noite do domingo com a divisão principal, mas acabei desistindo por conta da logística.

A pedida era ir a pé até o Estadio Autocrédito Diego Armando Maradona, casa do Argentinos Juniors para o confronto do "Semillero del Mundo" contra o Newell's Old Boys. Pena que a partida começaria às 17h45, e eu teria apenas quinze minutos para percorrer os quase três quilômetros. Chegar um pouco atrasado tudo bem, só que nesse caso perderia boa parte do cotejo, ainda mais tendo que comprar ingresso. Deixei a oportunidade de matar o Newell's para o futuro.

Voltei para o centro da cidade com aquele ânimo sempre sensacional quando estou em Buenos Aires. Fui pela primeira vez numa churrascaria maravilhosa na Avenida Corrientes para comer um dos melhores bifes que já tive o prazer de degustar nos meus quase 40 anos de vida. Na segunda-feira o futebol voltou ao esquema com uma peleja pela Primera B Metropolitana e mais dois clubes na Lista.

Até lá!

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Jogo épico na Javari e mais uma vitória do Barcelona na Segundona

Texto e fotos: Fernando Martinez


A atual temporada do futebol brasileiro está pífia. Fato. Vi uma série de jogos ruins e minha média de gols é a pior desse século. Com tanta ruindade rolando por aí, foi um presente divino ter tido o privilégio de assistir o confronto entre Barcelona e CA Lemense, válido pela 8ª rodada do Campeonato Paulista da Segunda Divisão, no Estádio Conde Rodolfo Crespi, no último domingo.

O Elefante tem um time muito superior ao de 2015 e apostava na fase invicta para tentar emplacar novo triunfo, agora contra o vice-líder do Grupo 3 antes da rodada. O CAL teve um início avassalador com três vitórias consecutivas - a primeira delas num 5x0 contra o próprio Barcelona - mas nos últimos quatro confrontos venceu apenas um deles. Uma derrota embolaria demais a luta pelas vagas da chave na próxima fase.


Barcelona Esportivo Capela Ltda - São Paulo/SP


Clube Atlético Lemense - Leme/SP


Capitães dos times junto com o árbitro Thiago Luis Scarascati e os assistentes Mauro André de Freitas e Marcela de Almeida Silva

Mesmo com uma chuva que não parou de cair desde a sexta-feira, não tive problemas para ir até a Rua Javari. São Pedro deu uma trégua no caminho de casa até o estádio, porém bastou eu entrar no gramado e o dilúvio voltou com tudo, deixando eu e meu guarda-chuva furado em apuros para captar as fotos oficiais.

O gramado claramente estava bem prejudicado, só que isso não atrapalhou o jogo em si. A peleja foi simplesmente sensacional, cheia de alternativas e emoção para todos os gostos. Os 151 torcedores que pagaram ingresso viram uma grande exibição do onze local, certamente a melhor desde que o time voltou ao profissionalismo na temporada passada.

A melhor campanha do Lemense - atuando com uma bela camisa laranja - não entrou em campo, pois o Barcelona iniciou os trabalhos bastante empolgado, tendo mais posse de bola e chegando mais vezes perto da área. Infelizmente para a animada torcida local o último toque era falho. O CAL não conseguiu mostrar um futebol de encher os olhos, mas mesmo assim inaugurou o placar no primeiro ataque perigoso realizado aos 29 minutos. James fez o gol em chute de longe que entrou no canto.

O Elefante continuou um pouco melhor e chegou ao esperado empate aos 37. Numa falta na intermediária, a bola foi alçada na área pelo camisa 8 Diego. A zaga deixou para o arqueiro e o arqueiro deixou para a zaga. Resultado: a pelota entrou direto no gol. Debaixo da insistente chuva o primeiro tempo terminou com o 1x1 estampado no placar não-eletrônico na Javari.


Jefferson cortando cruzamento dentro da área do Lemense


De longe, detalhe do gol de empate do Barcelona, marcado por Diego


Zaga do time visitante se livrando da pelota sob forte marcação

No tempo final o dilúvio deu uma parada e o jogo ficou ainda melhor. O Barcelona criou boas chances e continuava tentando acertar o último toque quando o Lemense fez o segundo. Numa bola levantada na área pela direita, um atleta do CAL resvalou na pelota e um dos zagueiros acabou tocando de leve na sequência, atrapalhando o arqueiro Alisson.

O gol foi injusto com o que acontecia em campo, porém o escrete paulistano precisava ajeitar as finalizações caso quisesse melhor sorte. Além disso, o Lemense teve a oportunidade de fechar a fatura num lance aonde o imenso lamaçal de dentro da área serviu como zagueiro. Se tivesse tempo seco, fatalmente o terceiro teria saído.

E se não teve como acertar os chutes, a questão para o escrete local foi resolvida com a cabeça. Eram decorridos 27 minutos quando o Barcelona armou um ataque pela esquerda. A bola foi levantada na pequena área e Thiago apareceu livre entre os zagueiros para colocar no canto direito de Jefferson.

O novo empate deixou a partida mais dramática. Sentindo o bom momento, os locais encurralaram os atletas da Lemense para o campo de defesa e o que se viu foi uma série de investidas perigosas a favor do clube da Zona Sul. Teve gol perdido na frente da meta e também defesa difícil de Jefferson até que uma falta na entrada foi marcada quase em cima da linha da grande área.

Dois atletas do Barcelona se posicionaram para a cobrança, que por fim ficou a cargo de Gabriel Alves. Ele bateu de forma primorosa, colocando a pelota no ângulo esquerdo de Jefferson. O arqueiro ainda tocou na bola só que não teve como impedir a espetacular virada. A comemoração foi alucinante, e infelizmente o artilheiro foi expulso por ter ido comemorar no alambrado e tomado o segundo cartão amarelo. É regra, eu sei, mas não existe nada mais cretino no futebol atual do que isso.


Marcação firme do time local no tempo final


Meio desfocado, Thiago deixa tudo igual aos 27 do tempo final. Era o segundo do Barcelona



Gabriel Alves virou o placar para a equipe paulistana em belíssima cobrança de falta. A emocionada comemoração valeu o segundo cartão amarelo para o camisa 18


O Lemense tentou, sem sucesso, o novo empate nos minutos finais

Os minutos restantes foram de blitz do CAL e felizmente para os locais não aconteceu novo empate. O placar final de Barcelona 3-2 CA Lemense foi histórico para o time paulistano em vários sentidos. Esse foi o terceiro triunfo seguido em casa, algo que havia acontecido apenas uma vez na história do time, em 2004. O time não marcava mais de dois gols como mandante desde abril de 2007. Os onze pontos conquistados até aqui superam as campanhas de 2009 e 2015, as duas últimas no profissionalismo. Além de tudo isso, a vitória aproximou o time no G4 e agora o quarto colocado está a dois pontos de distância. Quem sabe o Elefante não belisca um lugarzinho na segunda fase?

O mais importante a respeito da grande sessão de futebol é que mais uma vez aqueles que dizem que só assistimos "jogos ruins" realmente não manjam absolutamente nada do lance. Esses figuras e os que acham que futebol se resume aos doze grandes deveriam ser obrigados a assistirem a peleja na íntegra várias vezes seguidas. Quem sabe assim acabariam com esse preconceito idiota com os times e torneios que não são "de ponta".

Até a próxima!

sexta-feira, 3 de junho de 2016

JP na Argentina 9 (1/9): El Cartero versus Gallo pela Primera B

Texto e fotos: Fernando Martinez


Todo mundo que acompanha futebol de verdade, aquele longe do foco da "mídia especializada", sabe que o Brasil não é o país do futebol... fato. Difícil saber quem pode ter essa honra, mas entre todos os candidatos a esse troféu com certeza a Argentina é postulante forte ao primeiro posto. No último mês de abril, sete anos após minha primeira visita a Buenos Aires, peguei meu passaporte e armei minha segunda viagem ao nosso vizinho.

Tudo bem, confesso que o motivo principal da minha ida dessa vez nem foi o futebol em si, porém isso não vem ao caso num blog que fala somente sobre futebol. O que importa é que mesmo com a agenda apertada consegui armar um cronograma monstro e bati cartão num total de nove pelejas, além de um em Montevidéu, na primeira incursão do JP em terras uruguaias em todos os tempos. Seriam muito mais partidas, só que um tornado mudou todos os planos (isso será contado em detalhes em breve).

Saí de São Paulo na tarde do dia 8 de abril com 32 graus na moleira e o tempo extremamente seco. Cheguei na capital argentina no meio da noite com uma temperatura de 12 graus e chuva fina, um presente divino. Desembarquei sem problemas e peguei um dos baratos táxis da capital federal. Não demorou para chegar no meu QG, localizado em frente ao Obelisco, coração da cidade.

Mesmo bastante cansado eu resolvi dar uma volta pelo centro para matar minha saudade dali. Olha, o lugar parece estar mais legal hoje do que estava em 2009. Por ser uma sexta-feira, os restaurantes estavam cheios, assim como livrarias, sebos, lojas de discos e os vários teatros que ficam na Avenida Corrientes, mesmo madrugada dentro. Respirei esse ar sensacional por algumas horas e então voltei ao hotel para minha primeira noite fora de casa.


Visão absolutamente sensacional da janela do quarto aonde me hospedei no centro de Buenos Aires. A primeira parte da viagem teve essa vista

A ideia era fazer uma rodada dupla no sábado, mas no fim acabou rolando de assistir "apenas" uma partida só. "Apenas" com as aspas pois é claro que não dá para reclamar de ter feito a reestreia portenha com o confronto entre o sensacional Club Comunicaciones e o genial Club Deportivo Morón na cancha do primeiro, o Estadio Alfredo Ramos. A peleja foi válida pela 10ª rodada do Campeonato de Primera B, a terceira divisão nacional.

As cinco divisões do Argentino realizadas nesse primeiro semestre são bastante peculiares. Todos estão sendo chamados de "campeonatos de transição", pois terminarão agora em junho. Isso porquê a AFA irá realinhar seu calendário com o calendário europeu a partir de agosto. Os vinte times participantes jogam entre si em turno e o campeão subirá para a Primera B Nacional.


Escudos de Comunicaciones e do Deportivo Morón, adversários na primeira partida na edição 2016 da série "JP na Argentina"

A casa do Comu fica na Zona Norte da cidade, a dez quilômetros de distância do Obelisco. Chegar ali de transporte público é a maior moleza, já que a Estaçao Francisco Beiró, que faz parte da Linha Urquiza dos "Ferrocarriles" locais, fica a menos de mil metros dali. Como eu estava um pouco atrasado, fui de táxi e gastei cerca de 100 pesos, ou 25 reais, para chegar lá.

O time do bairro de Agronomía foi fundado em 1931 por empregados dos correios como Club Atlético Correos y Telégrafos. Em 1953 o nome foi alterado para Club Comunicaciones. No mesmo ano, a agremiação recebeu do presidente Perón um enorme terreno de 16 hectares para a utilização como um clube social.

O número de instalações esportivas ali é enorme. O local tem, além do estádio, vários campos de treino, ginásio, restaurante, quadras de tênis, campo de rugby e até uma faculdade. Juro que não imaginava que a infra-estrutura tão imponente assim. O lugar é tão imenso que demorei alguns minutos para encontrar o portão de entrada. Na acanhada bilheteria comprei meu ingresso para a "platea" no calor de 200 pesos - equivalente a pouco menos de 50 reais, salgado para nossos padrões - e logo fui para o meu lugar.

Na internet há a informação que a capacidade do Alfredo Ramos é de 3.500 pessoas, porém aparentemente não é bem assim. O estádio tem arquibancada apenas em uma das laterais e mesmo que apertassem bem, não caberia esse número de pessoas nem em sonho. Tanto é assim que as dependências estavam cheias de "hinchas" dos dois clubes e o público oficial foi de 300 pagantes. Isso não muda o fato que o local é muito aconchegante e ótimo bom para se ver um jogo de futebol.



Fachada e entrada do Estadio Alfredo Ramos, casa do Club Comunicaciones


Parte central da "platea" da casa dos Carteiros


Cabine principal de imprensa


O escudo do Comunicaciones está representado em vários lugares da praça de esportes, aqui na entrada de um dos banheiros

Falando do encontro futebolístico da tarde em si, esse é um confronto bastante comum nas divisões de acesso do Argentino desde os anos 70. Nessa temporada o Deportivo Morón, equipe fundada em 1947, vinha fazendo uma campanha um pouco melhor do que o Comunicaciones. O Gallo até então era o oitavo colocado enquanto os Carteiros estavam em antepenúltimo, tendo vencido apenas na primeira rodada e amargando em jejum de dois meses sem triunfos.

Para a alegria da animada hinchada do Comu, os donos da casa fizeram uma grande apresentação e não deram muitas chances para o Deportivo. Logo aos 14 minutos, o camisa 9 Nicolás Ibañez se aproveitou de um erro do goleiro Alvarez e abriu o marcador.

O jogo continuou melhor para os locais e muito disputado. Entre um lance e outro parava o olhar e assimilava tudo que acontecia ao meu redor. Apesar de estar em outro país e inserido numa cultura diferente, os mesmos personagens que existem aqui, existem lá. A diferença fica por conta das torcidas. Eles não param um minuto sequer, bem diferente do que acontece aqui no Brasil, aonde salvo raras exceções, a presença de público é diminuta.

Outro lance genial é que a linha do trem fica logo atrás do gol dos fundos do Alfredo Ramos e por várias vezes o trem passou por lá durante a partida. No último minuto do tempo inicial o Morón teve um atleta expulso e os atletas foram para os vestiários com o marcador indicando a vantagem mínima do time mandante.


Esse foi um dos maiores lances de perigo a favor do onze local no primeiro tempo. A bola foi cruzada na pequena área mas não apareceu ninguém para completar


Atacante local fazendo o corte após escanteio a favor do Morón pela direita


Visão geral do Alfredo Ramos e sua bucólica paisagem

No segundo tempo o futebol melhorou e o Deportivo voltou disposto a deixar tudo igual. Na primeira chance de perigo a favor dos visitantes quase saiu o empate. Rossi perdeu gol feito em forte cabeçada que teve defesa incrível de Giovini. Minutos depois um dos defensores do Comunicaciones salvou uma bola em cima da linha depois de chute pela direita.

Como quem não quer nada, os Carteiros foram se soltando aos poucos e aos 23 minutos conseguiram ampliar a vantagem com um belo gol de Barrionuevo. Apesar de terem tentado pelo menos diminuir o prejuízo, o Morón não foi capaz de anotar o gol de honra. Melhor para os comandados de Jorge Vivaldo, que fazia apenas sua segunda partida no comando do Comu.


Chute de fora da área para o Comunicaciones


O Deportivo tentou pelo menos anotar o gol de honra, aqui em lance pela lateral, mas não teve sucesso


Disputa de bola no meio-campo


Bola levantada na área dos donos da casa no fim do jogo


Outra investida do insistente ataque do Deportivo Morón no tempo final

O placar final de Comunicaciones 2-0 Deportivo Morón quebrou o jejum do onze preto e amarelo e melhorou um pouco a situação do clube na tábua de classificação. Posso dizer que dei sorte para a equipe, pois desde então o time não perdeu mais. Hoje, faltando duas rodadas para o final da Primera B, a equipe ocupa a sexta colocação e mesmo sem chances de acesso, a campanha merece ser louvada. O Morón ainda tem chances, mesmo remotas, de subir para a Primera B Nacional.

Como sempre faço em viagens, permaneci nas dependências do estádio até o último momento possível fazendo fotos e mais fotos para os meus arquivos. De acordo com meu cronograma, o futebol continuaria na pauta com outro jogo logo, agora pela principal divisão do Argentino. Só que não sabia de um pequeno detalhe: não existem ingressos à venda para essa divisão na data da peleja. Ou seja, fui até o Monumental de Nuñez para colocar o Sarmiento na Lista e perdi a viagem. Até tive a oportunidade de comprar um ingresso com um cambista que parecia o Gardelón, pena que pagar 200 reais por isso me pareceu uma alternativa um tanto quanto absurda.

Voltei para o hotel e armei aquele esquema na base dos embalos de sábado à noite com louvor. Muita andança pelo centro, paradas nas livrarias e sebos e fim do passeio numa pizzaria ótima na Corrientes. A viagem estava apenas começando...

Até a próxima!